pessoa a trabalhar 4 dias por semana num escritório com vidros e a ver o rio
Carreira Desenvolvimento Pessoal

Trabalhar 4 dias por semana é mesmo a solução para Portugal?

Desde 2020 que se vem a falar no tema: podem os portugueses trabalhar 4 dias por semana? Isso resolve o problema da produtividade? Vamos ver.

Em Janeiro de 2020, o Observador publicou a notícia sobre a primeira-ministra da Finlândia queria que as pessoas apenas trabalhassem 4 dias por semana.

Um ano depois, com uma pandemia que colocou meio mundo ocidental em teletrabalho, o tema voltou a estar em cima da mesa, com algumas empresas portugueses a fazer as suas próprias experiência.

A verdade é que a ideia de trabalhar 4 dias por semana tem ganho adeptos em Espanha e no Japão, depois da experiência positiva da Islândia.

E Portugal? Conseguimos trabalhar 4 dias por semana?

Os comentários sobre este tema fizeram-se surgir nas redes sociais, incluindo no Linkedin.

Todos querem a mesma ideia para Portugal, que é um país atrasado. Que tem patrões-pais que controlam os empregados de forma cruel. Que tem empresários que só vêem lucro à frente e que quanto mais horas as pessoas trabalham, melhor. Que tem uma cultura empresarial de responder a e-mails às 21h enquanto se coloca os filhos a dormir.

É um tema que traz para a mesa muitas ideias válidas e que devem ser debatidas por todos. A ideia de diminuir o trânsito e a pegada ecológica, bem como permitir uma maior flexibilidade entre vida laboral e familiar são muito importantes e devem ser concretizadas num futuro próximo.

A ideia que trago para a mesa é a seguinte: se só trabalhássemos 4 dias por semana em Portugal, seríamos mais produtivos?

Penso que este é o cerne da questão que está a ser evitado em vários comentários. Será que somos pouco produtivos porque trabalhamos poucas horas, ou somos poucos produtivos porque não trabalhamos bem nas horas em que trabalhamos?

De facto, acredito mais na segunda hipótese. Trabalhamos mais do que 40 horas, é certo, e não desligamos do escritório facilmente. Mas ainda assim não somos produtivos.

Claramente o problema não está no número de horas, mas sim no que fazemos com elas.

Acredito que mesmo a trabalhar 4 dias por semana, continuaríamos a ser pouco produtivos.

Porquê? Porque não temos mindset, nem estruturas, nem modelos de operação que nos tornem produtivos.

Para sermos mais produtivos, não basta reduzir horas – é preciso educar para a produtividade.

Para fazermos mais em menos tempo, é preciso eliminar as burocracias, as operações arcaicas, a má organização.

É preciso introduzir métricas de performance, planos de evolução de carreira, avaliações de desempenho transparentes, comunicação clara de objectivos para pessoas e accionistas.

Do lado da performance, há que investir numa equipa de gestão que se preocupa com o negócio e com as pessoas. Um equipa de diretores que pensam no curto, no médio e no longo prazo, tenho a visão de ter uma empresa para as pessoas que todos os dias investem nela.

Do lado das operações, a resposta está em agilizar, através da digitalização.

E para digitalizar é preciso educar os colaboradores para esta nova realidade.

É necessário dar formação às pessoas e lideranças de como devem organizar o seu trabalho através da sua relação com softwares. É necessário dar mais tempo aos profissionais para pensarem e serem criativos, em vez de passarem o seu tempo a operacionalizar com métodos pouco flexíveis e que produzem pouco valor à empresa.

Outro ponto que queria trazer para a discussão é o impacto financeiro nas empresas, quando os horários são reduzidos. Nas empresas que trabalham por turnos ou que têm modelos de atendimento ao público, a redução para 4 dias por semana implicaria contratar mais pessoas e gestores, trazendo um impacto financeiro direto. Será que as pequenas e médias empresas conseguem acompanhar estes custos?

As implicações não estão só na contratação de pessoal, mas também no cumprimento de prazos legais.

Por exemplo, conheço departamentos financeiros que tem de cumprir prazos de faturação e pagamento de impostos. É um trabalho burocrático, administrativo, chato, mas necessário. Em empresas de grande dimensão, os softwares ajudam, mas o peso humano continua lá.

Ler mais: Transformação digital nas empresas: 4 dicas para dar o salto

Em alguns contextos já é sobre-humano fazer tudo a tempo e as empresas entendem isso. E se essas pessoas trabalharem menos um dia e menos horas, quais os custos de contratação de novo pessoal? Qual a probabilidade de não cumprir os prazos legais com a equipa que se tem?

Um marketeer ou um account manager pode trabalhar 4 dias por semana, mas poderá dizer-se o mesmo de um departamento financeiro? Por isso, acho perigoso diminuir a jornada de trabalho sem primeiro investir na agilização das operações diárias.

duas pessoas a jogar matraquilhos depois de trabalhar 4 dias por semana

Conclusão:trabalhar 4 dias por semana? Sim, mas vamos pensar realmente qual é o problema.

No fundo, o meu contributo é que se tenha uma discussão séria sobre a produtividade em Portugal.

  • Se os portugueses trabalham horas a mais e não são produtivos? Sim.
  • Se trabalhar menos horas contribui para o bem estar profissional e pessoal? Sim.
  • Se numa era de tecnologia as pessoas devem trabalhar menos horas? Sim, totalmente de acordo.
  • Se diminuir a jornada diária resolve o problema da produtividade? Não de todo

Os problemas complexos pedem soluções complexas e muitas variáveis à mistura. E essas soluções têm de ser equacionadas mediante o contexto económico-empresarial, bem como a saúde da empresa em questão, o bem-estar dos seus colaboradores, os resultados positivos da organização.

Além disso, não nos podemos esquecer que a implementação de uma solução parte muito da educação para a mesma: para sermos mais produtivos, temos de educar para essa produtividade e um Decreto Lei não faz nascer boas práticas do dia para a noite.

Neste debate sobre a produtividade em Portugal e a flexibilidade da jornada laboral, penso que a solução não passa por apenas dizer “vamos começar a trabalhar 4 dias por semana, porque a Finlândia ou a Islândia fez, as pessoas estão a pedir e vai ser um sucesso”.

É melhor olhar para o problema, procurar a solução e contribuir para a mudar do que só cruzar os braços e mirar. Afinal, o carro não anda só por nos colocarmos ao volante, há que destravar e por o pé no acelerador.

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