duas pessoas a trabalhar com flexibilidade de horarios
Carreira

A solução não é teletrabalho: é a flexibilidade de horários

Ficar em casa, ir para o escritório ou o modelo híbrido? Acho que primeiro devemos é ter flexibilidade de horários para haver real equilíbrio entre vida profissional e pessoal.

Já estamos nisto há mais de 15 meses. Teletrabalho para todos, depois há quem regresse ao escritório, equipas em espelho, teletrabalho para todos de novo…e agora?

Cada empresa tem a sua narrativa. As Big 4 de tecnologia estavam na liderança do remote-first. Meses depois estão a pedir aos colaboradores para voltar ao escritório. Uns indicam para aumentar a produtividade e criatividade das equipas, outros porque é o que as pessoas pedem. Contudo, há cada vez mais pessoas a desistir do seu trabalho nos EUA, pois querem uma vida diferente.

Já outras empresas abraçam totalmente o trabalho remoto. Não me interessa onde trabalhas, se queres vir para o escritório, vem; se não, trabalha no Minho ou no Funchal, como quiseres. O dia-a-dia transforma-se num contínuo de tempo em que uma hora está-se no zoom, noutra hora vamos a uma consulta, para à tarde ir buscar os filhos mais cedo.

E as relações com os colegas também mudam. A máquina do café é agora a call de Zoom e aparecem mais team buildings especialmente dedicados a estar com os colegas. Novos hábitos formam-se quando os colaboradores são ouvidos e podem ditar em parte o caminho das empresas, valorizando muito a digitalização e as suas vantagens de realizar o trabalho à distância.

Para mim o debate não é tanto o trabalho remoto – é a flexibilidade de horários.

Um dos grandes problemas da ida para o escritório cinco dias por semana era que todos tínhamos de cumprir aquele horário.

“Toda a gente” na empresa tinha de estar lá por volta das 9h-9h30 e a “hora de soltura” começava às 18h. Para ir a uma consulta, era preciso “entrar mais tarde” ou “sair mais cedo”. A vida no escritório era pautada pelo espaço, mas também pelo período de tempo que era expectável as pessoas trabalharem.

Foi preciso uma pandemia mostrar que o sistema está completamente obsoleto e desalinhado com o equilíbrio entre vida profissional e familiar – e, já agora, com a forma de trabalhar e com a produtividade.

É possível não trabalhar no escritório, não entrar às 9h em ponto, sair mais cedo, ir a consultas e, mesmo assim, o trabalho aparecer feito, com qualidade e a produtividade até aumenta, segundo as notícias.

Mais do que perceber se fazemos ou não um modelo híbrido, devemos é pensar em melhorar a produtividade e o estilo de vida dos colaboradores – e a solução pode ser a flexibilidade de horários.

Acho que o teletrabalho e a flexibilidade de horários estão interligados, como lados diferentes da mesma moeda. Quando se adopta um, o outro vem atrás. Se damos tempo, também demos espaço.

Mas a flexibilidade de horário pode ser feita em escritório ou em casa e é um “novo modelo” que pode mudar completamente a organização da empresa, os seus resultados, a sua cultura e, também, a motivação dos colaboradores.

Não há qualquer problema com o 9-to-5 tradicional, e há com certeza empregos estratégicos que não conseguem ter flexibilidade de horários, principalmente nas áreas da educação e da saúde. Mas se a principal vantagem do 9-to-5 é “porque sempre foi feito assim” não me parece uma boa argumentação.

Se pensarmos antes em como vamos trabalhar (em vez de pensar onde vamos trabalhar), vamos permitir às pessoas gerir o seu tempo, o seu trabalho, os seus resultados – e mudar as suas vidas e a da empresa.

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O que é ter flexibilidade de horários?

A flexibilidade de horários é baseado em máxima responsabilidade e máxima liberdade para o colaborador e para managers, em que ele vai entregar o trabalho na data estipulada. Independentemente se começa a trabalhar as 10h ou às 12h, ou se faz muitas pausas, ou entra mais tarde.

Vamos ser sinceros: ninguém é 100% produtivo todos os dias, ninguém trabalha 8 horas por dia. Porque é que nos focamos nessas horas, em vez dos resultados que se entregam?

Esta pergunta não deveria ser tema, mas a cultura das horas trabalhadas continua presente, com patrões muito controladores e com receio de não verem os seus trabalhadores a fazer o seu trabalho. Não percebo a cultura de controlo e de microgestão, mas sei que existem e que tinham toda a vantagem de ser mudados.

A flexibilidade de horários permite integrar aspetos da vida pessoal, sem grandes burocracias.

Posso ir ao médico, passear no jardim, almoçar fora, ir ao supermercado, ir às Finanças sem a pressão de que estou a faltar a alguma coisa. Isto é desrespeitoso? Acho que não, desde que o trabalho esteja feito.

Mas, calma, a flexibilidade de horários não é um cada um por si. Claro que há reuniões, discussões e relatórios em que estamos todos presentes, mas no resto do tempo, gere tu os teus objetivos, quer sejam às 18h, às 12h, ou até mais a final da noite.

Quais as vantagens da flexibilidade de horários?

Para mim é preciso começar este tema nas empresas de forma credível. Somos todos adultos e assinamos um contrato de trabalho com regras, direitos e deveres.

Como ponto de partida, podemos trabalhar para objetivos e resultados, e ao mesmo tempo criar uma boa cultura permitindo cada pessoa ser o melhor possível, aprender com outros colegas e ainda integrar a sua vida pessoal sem grandes dramas.

O que gosto mais na flexibilidade de horários é poder criar momentos de pausa e fazer outras atividades ao longo do dia, sem ter de esperar pelo fim-de-semana. Há assim um maior equilíbrio ao longo da semana, com momentos de trabalho e momentos de descanso.

A flexibilidade de horários pode trazer muito às empresas:

  • Produtividade: a responsabilidade é da pessoa, ela é que sabe o que vai entregar. E com boa organização até é possível não trabalhar os cinco dias da semana.
  • Melhor organização: é preciso fazer algo, organiza-te na melhor forma de o fazer. Se não estás a conseguir, fala com o teu manager, o trabalho dele é esse mesmo: ajudar-te a fazeres o teu trabalho.
  • Respeita-se a maneira de trabalhar de cada um: há quem adore começar cedo (eu) e outros que só funcionam a partir das 12h. A flexibilidade permite que cada um trabalhe a altura do dia que seja melhor para si.
  • Combate o sedentarismo: não faças sala, nem mesmo online. Faz pausas ao longo do dia, mexe-te, tira tempo para uma caminhada a qualquer momento.
  • Maior integração com a vida familiar, principalmente para as mulheres, que sofreram muito com a pandemia por terem papéis principais de cuidar dos filhos e da casa, para além do trabalho. Dar essa flexibilidade é permitir que cada pessoa crie as suas rotinas familiares, sem deixar de crescer profissionalmente.
  • Despertar a criatividade. Fazer pausas e estar off ajuda muito a sermos mais criativos. E quando somos mais criativos, criamos coisas fantásticas.
  • Maior motivação, com o lema de “máxima liberdade, máxima responsabilidade”, os colaboradores sentem-se mais motivados a fazer o seu trabalho, pois têm espaço para gerir a sua realidade.
  • Planeamento e organização, para se poder trabalhar todos em conjunto, para um só propósito. Puxa pelos managers para ter uma visão total da empresa, a ter objetivos e compromissos, a transmiti-los para a equipa e a construir algo sólido e com sentido para todos.

A flexibilidade de horário resulta se existir planeamento

Como disse, nem todas as empresas podem adoptar a flexibilidade de horários. É preciso, portanto, ter sensibilidade sobre o tema. Mas para quem está no corporate world e durante a carreira apenas muda de escritório em escritório, não vejo porque a flexibilidade não possa ser regra.

Antes da pandemia, as startups eram as empresas que comunicavam a flexibilidade de horário ou o teletrabalho como benefícios de trabalho, para atrair o melhor talento.

Depois da pandemia, esta crença não desmoreceu e muitas delas já estão a pensar remote-first.

Tal acontece porque o trabalho é altamente organizado em metodologias ágeis, principalmente na área da tecnologia. Tal permite planear, responder a mudanças e também saber a qualquer momento do dia, o que há para fazer. Assim, percebe-se que quando há planeamento, há lugar para maior liberdade.

Mas se a empresa não tem este planeamento, a flexibilidade de horários não traz as grandes vantagens que tem. Sem um plano e objetivos, menos liberdade têm os colaboradores de gerir o seu trabalho. Sem confiança e disciplina, menos liberdade se pode ter, menos flexível podemos ser.

Acho mesmo que a flexibilidade de horários resolve tudo? Não, mas combate grande parte do problema.

Olho para a flexibilidade de horários como algo simples e garantido atualmente na minha realidade, mas sei que nem todos beneficiam desta cultura de empresa. Ainda existe muito a ideia da microgestão, de fazer sala só para mostrar que se está a trabalhar ou fazer pausas apenas para passar o dia, quando podia-se facilmente ir para casa mais cedo quando o trabalho estivesse feito.

Cabe à gestão entender o trabalho tal como é: trabalho a ser realizado, não importa onde e quando, desde que cumpra os objetivos traçados.

Podemos pensar um pouco.

O trabalho tem de ser feito, ponto.

Os colaboradores é que fazem o trabalho, ponto.

A melhor forma de o trabalho aparecer feito é deixar as pessoas fazerem o trabalho como sabem fazer.

Sem burocracias, sem “acho que”, sem controlos parvos e obsoletos.

Para terem tempo para gerir as suas vidas e a própria empresa poder focar-se na estratégia, na cultura, nos benefícios, na experiência de trabalho.

Se conseguimos mudar esta cultura, muito podemos ganhar, mesmo sendo um país pequeno.

Por isso, antes de pensar “como” vamos regressar ao trabalho, pensem como está organizado o trabalho – e talvez aí a produtividade aumente e a felicidade laboral também melhore.

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