exemplo de ceo de self-made men
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O self-made man não é real – sabe porquê

O caso do self-made man no desenvolvimento pessoal é gritante. Mas se em alguns casos parece meia verdade, na maioria é apenas um mito. Sabe porquê.

Um dos tópicos mais interessantes no mundo do empreededorismo está relacionado com o sucesso.

O desenvolvimento do pequeno empresário não é algo recente.

Se pensares bem, antes do século XVIII não existiam grandes empresas ou centros comerciais. Cada família dedicava-se a um ofício: sapateiro, carpinteiro, faqueiro, ourivesaria, tecidos. Era a família que “empregava” as pessoas, cuidava quando estavas doentes, pagava a tua reforma ou baixa. A oficina e a casa poderiam ser no mesmo edifício e pais, filhos, avôs e sobrinhos trabalhavam em conjunto para os seus clientes.

O objetivo era a sobrevivência da família, bem como era comum acolher aprendizes para o ofício prosperar geração após geração. Este modelo tinha vantagens como desvantagens. Se o negócio não prosperasse, a família passaria fome ou perderiam para a concorrência quando não havia seguros.

Foi assim que se deu o êxodo rural, em que cada vez mais pessoas foram para a cidade. Nasceu o grande empresário.

O self-made man apareceu então na Revolução Industrial

Os pequenos comerciantes deram espaço às grandes fábricas. Havia alguém que investia a primeira fortuna e empregava mão-de-obra pouco qualificada, trocando trabalho por dinheiro. Trabalhavam muitas horas por dia, viviam em bairros operários coletivos com condições mínimas.

Com o Fordismo apareceu então a “segurança” no trabalho: se um empregado trabalhasse para determinada fábrica, o patrão dava-lhe trabalho para o resto da vida. Tal significava estabilidade e um rendimento seguro para a família.

A Revolução Industrial permitiu que pessoas com alguma fortuna pudessem em investir pouco num projeto grande, empregar pessoas com custos baixos, aumentar a sua produção trabalhando mais horas e colhendo os seus frutos. Cada vez mais pessoas fora de famílias ricas podiam ser ver a sua sorte ser mudada, muitas vezes sem grandes conhecimentos.

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Nasceu assim o mito do self-made man que perdura até hoje

O self-made man – na altura porque as mulheres ocidentais não faziam parte do mercado de trabalho, até à Primeira Guerra Mundial – descreve a ideia de que alguém “fez-se a si próprio”. Ou seja, em vez de dependerem de uma riqueza de família, são pessoas que vieram do nada, construíram os seus negócios e os converteram em impérios reconhecidos nacional e internacionalmente.

A noção de “self-made” foi cunhada por Henry Clay em 1842, a falar de homens que tinham sucesso porque dependiam do seu trabalho e não devido à sorte.

Esta tendência é muito observada nos Estados Unidos, em que se fala como um pobre pode se tornar milionário se trabalhar e investir no cavalo certo.

É comum ver isto quando se fala de CEO de multinacionais. Elon Musk, Steve Jobs, Bill Gates, Jeff Bezzos são casos considerados de “self-made”. Atualmente a revista Forbes também reconhece as self-made women, como Rihanna, Kris Jenner, Meg Whitman (Ebay), Oprah, Sara Blakely, Madonna, Celine Dion, entre outras.

O que é preciso para ser considerado self-made man?

Tal como o nome indica, é alguém que só depende do seu trabalho e poucos fatores externos ditaram o seu sucesso, como sorte ou fortuna.

Nestas listas mais modernas, é considerado “self-made” quem consegue vingar numa indústria, sem ter familiares dentro dela. Por exemplo, a realizadora Sofia Coppola é filha de Francis Ford Coppola, realizador do filme O Padrinho. Pelo pai já estar na indústria, dificilmente o sucesso de Sofia é “self-made”. Porque tem acesso à indústria, cresceu nela, teve uma porta de entrada mais fácil.

O mesmo se passa com Ivanka Trump, por exemplo. Ao ser filha de um milionário, teve privilégios que lhe permitiram ter uma marca de roupa em várias lojas, licenciar-se numa universidade de renome, bem como ter acesso a milhões de dólares em empreendimentos para gerir.

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Ser self-made man é uma definição cada vez mais criteriosa de se colocar, pois mesmo que não se tenha anterior acesso a uma indústria, o conhecimento, os contatos e o privilégio familiar podem colocar a pessoa numa posição vantagem.

O caso de Kyle Jenner é polémico. Apesar de nenhuma pessoa da sua família trabalhar na indústria de cosméstica, Kyle certamente gozou de maior acesso por fazer parte da família mais famosa de reality TV. É difícil ser considerado ser self-made quando há privilégios.

mulher ceo a posar como self-made man

Mas o self-made man é um mito? Sim é.

Digo que esta noção de que consegues ser bem sucedido sozinho é um mito porque tudo aquilo que podes ter é resultado de um trabalho em equipa.

Sim nunca fazes nada sozinho, tens sempre a ajuda de alguém

Acredito que singularizar o sucesso numa só pessoa é induzir em erro de que precisamos de fazer tudo sozinho. É verdade que Elon Musk trabalha imensas horas por dia, entrega-se à Tesla como ninguém e, se for preciso, também vai construir carros.

Contudo, ele precisa de uma equipa para concretizar os seus objetivos. Para que o seu sonho de colonizar Marte seja possível, ele tem de confiar no trabalho e conhecimentos de outros. Ele pode ficar com os louros, mas não escalou a montanha sozinho.

O mesmo se passa com uma Oprah ou uma Rihanna. Estas conseguiram montar verdadeiras marcas, mas apenas porque o público as ajudou. Se Oprah tivesse de apresentar, realizar, filmar e produzir o seu programa sozinha, chegaria onde chegou?

Podes também olhar para grandes youtubers como exemplo. Muitos deles acabam por ter tanto trabalho que delegam funções. Gravam vídeos, mas não os editam. Ou têm um agente para angariar e gerir parcerias. Chega a uma altura que para continuares a trabalhar no teu sucesso precisas de ajuda.

E apesar de um Youtuber aparecer “sozinho” como a estrela, há uma equipa por detrás que realmente ajuda nesse sucesso.

Outros exemplo de que gosto de falar do self-made man é o Gary Vaynerchuk

Gary Vee é, de facto, um self-made man. Filhos de emigrantes, começou a trabalhar na loja de vinhos do pai, ajudando-o. Depois criou um canal de Youtube sobre vinhos e encontrou o seu sucesso na Internet. Hoje é milionário, dono de diversas empresas, incluindo uma agência de media digital que tem como clientes grandes marcas.

Não foi a fortuna dos pais que lhe deu uma casa de luxo em Manhattan. Foi a sua visão e trabalho. No entanto, ele tem colaboradores, um assistente de vídeo para fazer os milhares de conteúdos que publica. Ele tem administradores, financeiros e estrategas digital para cuidar das contas dos clientes, não sendo ele a fazer tudo sozinho.

Acreditar que Vaynerchuk é um self-made man pode-te dar a impressão de que todo o seu sucesso depende dele, o que não é totalmente verdade.

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O self-made man não tem sucesso porque é melhor que o contexto – ele apropria-se dele.

Por fim, o self-made é um mito, porque retira o contexto económico das pessoas. É verdade que, para quem está de fora, estas pessoas têm sucesso mesmo que o contexto não seja de riqueza.

Mas é o contrário. Quem tem sucesso fruto do seu trabalho usou o contexto em seu favor de certa forma. Foi um misto de trabalho e estar no sítio certo à hora certa que ajudou a que os projetos florescerem.

Além disso, lembra-te que muitas vezes estas pessoas apenas contam as coisas boas, excluindo os insucessos. Acredito que Gary Vee é uma inspiração e é muito bom naquilo que faz. Mas claramente o seu conteúdo foca-se em todas as vezes que ganhou, e não tanto nas que falou. É verdade que ele também fala brevemente dos projetos que não correram bem.

Assim, o self-made man pode também já ter falhado, como tu. Certamente fez investimentos que não correram bem e ao longo da sua vida teve de lidar com o não.

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Estes são os aspetos que te podem ajudar a perceber que, mais uma vez, não fazemos nada sozinhos e que o self-made man é um mito. Não consegues ter sucesso só com o teu trabalho. Precisas de relações com outros, um plano estratégico e alguma sorte para dar certo.

Foca-te nos teus objetivos, aprendo com os momentos negativos, mas também tens de saber desistir e partir para outra. A tua jornada de self-made nunca acaba e nunca é feita sozinha.

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