MILLENNIALS

Reflexão sobre os jovens estudantes desempregados de asas cortadas

Quando se fala em juventude, fala-se de futuro. Mas quando falamos dos jovens estudantes desempregados, há um aperto no coração.

Não sou de publicar coisas tristes ou negativas, muito menos aqui no Erre Grande. Contudo, se falo de Millennials e de jovens adultos, estou aberta a estes assuntos. Neste caso, esta crónica chamou-me à atenção e não poderia deixar de postar.

print de um artigo do observador com o titulo que pena ser a alma tão pequena

Uma crónica sobre os jovens estudantes e a pena

Neste artigo de opinião que encontrei, li-o com toda a calma e senti que estava a falar de uma realidade muito próxima. E isto acontece cada vez que se fala em jovens e em desemprego. Li esta crónica e senti como se fosse sobre jovens estudantes desempregados ou uma nova categoria de jovem adulto.

Esta crónica fala de uma porque é realmente uma situação frustrante, tal como descreve o parágrafo abaixo que transcrevo na íntegra:

Excerto de “Que pena a alma ser tão pequena”

3. Olho os meus jovens estudantes numa pausa da aula. 20 anos, que coisa, 20 anos (ninguém tem 20 anos, penso). Depois olho-os outra vez, do mais brilhante – a quem acabei de dar 19 valores, coisa rara na faculdade – aos fracos das últimas filas, difíceis de controlar na sua tendência para conversar, consultar telemóveis ou, simplesmente, dormitar. Contemplo os jovens estudantes e sinto crescer em mim um sentimento que de início não entendo, não consigo explicar, é um aperto leve mas contínuo, um esgar de contrariedade, uma incomodidade inominada. Olho-os um a um enquanto falam à espera que eu retome a lição, já perplexos alguns, pelo ar estranho com que os fixo, um a um, fila a fila, medindo-os, avaliando-os, lamentando.

E percebo ser de comiseração o sentimento que sinto, um sentimento de pena ao ver aqueles jovens, 20 anos de esperança, a sonhar com um futuro onde cabem empregos, realização pessoal e profissional, com rendimentos que os levem a viver tão bem ou melhor do que os pais viveram, como os pais em relação aos avós; olho-os com pena porque sei o que eles não sabem, ou sabendo-o rejeitam-no com o vigor da juventude que são, 20 anos, aos 20 não há impossíveis, mas eu sei que há, e tenho pena, não devia, faz-me pena ter pena. Detesto ter pena.

E então revolto-me, sinto outro sentimento, de estima, de revolta, a minha pena é agora revolta e estima, estima por aqueles jovens tão jovens, têm 20, em breve 30, provavelmente o meu aluno de 19 valores viverá longe, noutro país, remunerado, feliz, alguns dos outros não, sobreviverão de estágios, empregos breves e mal pagos; sinto estima e revolta contra um sistema que condena a inteligência jovem do país a partir, ou manter-se num regime de precaridade insuportável. Da minha pena fez-se revolta. Ainda bem.

Senti muito esta crónica. Porque foi assim durante dois anos.

Foi durante os dois anos que procurava por uma oportunidade de fazer parte do mercado de trabalho.

Agora que penso ter arranjado um espaço pequeno mas acolhedor, olho para trás para esses tempos e não sei como consegui persistir.

Como consegui passar dia após dia a não trabalhar, dia após dia a passar horas em websites de emprego, dia após dia a mandar currículos e a ir a algumas entrevistas. Dia após dia a tentar procurar mais uma formação que me poderia ajudar em alguma coisa, a pedir referências a amigos ou familiares. Talvez aguentei porque tenho resiliência ou um pouco de sorte, não sei.

E eu sei que agora estou “livre” disso mas sei que muita gente continua neste ciclo vicioso, a desesperar, quando ser jovem devia significar ter a vida pela frente. E cada vez que vejo mais um jovem licenciado ou com outros estudos, com determinação para trabalhar e aprender, ou que que vejo alguém nesta situação, sinto o mesmo que este senhor. Primeiro pena porque não desejo essa situação a ninguém mas depois não quero ter pena e então fico revoltada.

Como é possível termos jovens estudantes desempregados que ainda não estão a viver o seu futuro?

Como é possível vivermos na época mais tecnologicamente avançada, com mais dinheiro, mais oportunidades, mais formação e qualificação e mesmo assim existir este inferno estúpido? Porque trabalhamos mais quando há tecnologia para trabalhar menos? Actualmente ser jovem é sentir que nos cortaram as asas antes de sequer deixarem-nos aprender a voar.

Não quero ter este tipo de discurso, muito menos aqui. Mas parece que ser jovem é ter uma vida promissora hipotecada porque o diploma não chega. Porque a experiência não existe, porque ninguém quer dar a experiência que não existe.

Noto que as coisas estão pouco melhores desde que sai da faculdade há 3 anos atrás mas ainda sinto que há imenso a fazer.

Sim, isto foi em 2013, no pico da crise. E demorámos a recuperar. Mas entretanto vivemos a pandemia do Covid-19 e não sabemos muito bem como será o futuro. Sabemos que o mundo vai mudar depois do Coronavírus. Quer dizer, sabemos que haverá recessão, mas não sabemos de que forma, durante quanto tempo, ou quão severa será.

Porque não quero que os jovens de 19 e 20 anos passem por aquilo que passei. Não é justo e não é normal. Gostava que o mundo mudasse neste aspecto, mas não posso fazer futurologia. Muito menos em clima de pandemia.

O mercado de trabalho mudou para sempre e que sejam criadas melhores condições para os jovens. Espero bem que mude e que mude rapidamente, porque hipotecar os jovens é hipotecar o futuro e isso não deve ser tolerado, seja em que sociedade for.