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Conversas Globais: 10 ideias sobre o mundo

Este livro de Conversas Globais é uma excelente forma de entender o mundo – o futuro reservado para nós.

O segundo livro lido em 2021 despertou não uma review do livro, mas sim um conjunto de ideias a partilhar contigo.

O Conversas Globais é um livro que nasce do programa Conversas Globais que foi emitido pela TVI24 entre novembro de 2019 e agosto de 2020. Não vi as entrevistas e acredito que o sumo final seja diferente. Mas este livro é uma excelente ferramenta para os dias de hoje. Não quero de todo desencorajar a ler o livro com as minhas notas. Quero exactamente o contrário: incentivar à leitura.

O que mais gostei foi entender as questões macro

É interessante perceber como os problemas micro do meu dia-a-dia têm um contexto macro que não chega à maioria das pessoas. É verdade que tenho mais interesse na política internacional do que propriamente nacional (algo de que não me orgulho) e por isso estou mais atenta a estas questões.

Neste livro, os temas tratados não poderiam ser mais globais: geopolítica, globalização, digitalização, mercado financeiro, economia, Europa, EUA Vs China. Quer queiramos quer não, há conhecimento científico que explica estas esferas internacionais e de que forma estas influenciam o cidadão comum. Este livro ajuda a perceber essa perspectiva da atualidade e os desafios do futuro.

Estas são as 10 ideias a saber sobre as Conversas Globais:

1 – A Guerra entre os EUA e a China é uma guerra comercial

Já não é tanto o poder das armas ou o poder político. Fazer guerras não é compensador num mundo em que os país estão tão interligados pelo comércio. Assim, o foco de ganho está no domínio das relações comerciais: quem circula mais bens, quem tem mais parceiros, ganha. O crescimento económico chinês foi notável nos últimos 30 anos, mas os EUA continuam a ser o grande player (se mantiverem o multilateralismo) .

Alguns especialistas do Conversas Globais acham que a China é que vai ganhar, outros não querem fazer futurologia. Sabe-se que o século XIX foi britânico, o século XX americano e o século XXI – será o século chinês? Iremos acompanhar esta competição nas próximas décadas.

2 – A globalização trouxe desigualdades

Há uma problemática da globalização que demonstra que existe um aspeto muito positivo e outro negativo.

O muito positivo é que a globalização retirou milhões de pessoas da pobreza extrema, em países como a China e a índia. No entanto, devido à concorrência internacional, a classe média europeia não sentiu esse crescimento nos seus bolsos. Foi prometido uma vida melhor, com mais salários, mas o crescimento estagnou.

Com isso, a desigualdade aumentou dentro das sociedades ocidentais, propiciando a ascensão de movimentos de extrema-direita, em que muitos reivindicam o isolacionismo, o unilateralismo, o “vamos cuidar só de nós”.

Este fenómeno ajuda a explicar a má distribuição de recursos pela sociedade (apesar dos países aumentarem a sua riqueza), porque ascendem os movimentos extremistas na Europa e porque é que uma geração Millennial tão bem instruída e preparada para a transformação digital está a viver com menos rendimentos que a geração anterior. Como vês, entender o plano macro ajuda muito a perceber a tua vida local.

3 – Act global, think local

Na segunda metade do livro, o programa Conversas Globais começou a falar sobre a pandemia COVID-19 e das suas consequências para o futuro. Um dos aspectos tem a haver com as cadeias de produção. Muitos foram os negócios que enviaram as suas equipas de produção para países asiáticos pois a produção seria mais barata. As encomendas podem demorar semanas, contudo, compensa para as empresas e para o cliente.

Mas com o fecho das fronteiras, tornou-se necessário ter cadeias de produção mais curtas, de forma a ser ágil em resposta a uma crise de transportadoras. Assim, talvez tenhamos mesmo de levar a sério a frase “act global, think local”. Olhar para o cliente de forma local, pensando em tendências internacionais.

4 – É preciso reindustrializar

Parece-me surpreendente falar em indústria em pleno 2021, quando estamos plenamente numa sociedade terciária. Contudo, o caminho deve passar pela industria, devido à economia real.

Tal como Mariana Mortágua exemplifica, uma grande empresa como a General Motors, que produz carros, percebeu que pode ter uma grande parte das suas operações e da sua liquidez investida em mercados financeiros e tal traz–lhe mais rentabilidade do que trabalhar para produzir e vender carros.

“A valorização das empresas deixou de ser por aquilo que elas produziam e pela sua visão a longo prazo do mercado e passou a ser sobre quanto é que elas valem em Bolsa”. É este o argumento que a deputada apresenta para que não haja aumento de riqueza efectiva na economia ou aumentos de salário. Portanto, é necessário voltar à lógica da industrialização, apoiada na robotização, na Europa.

Outros especialistas defendem esta visão, pois a União Europeia é um exemplo de qualidade de vida e de direitos humanos, contudo precisa de criar riqueza efetiva para a poder distribuir melhor. E esta pode ser uma nova via para a Europa crescer como união económica.

5 – A Europa tem de ser mais competitiva

Olha para o TOP 10 de empresas mais valorizadas no mundo, quantas delas são europeias? Pois, zero. Onde está a Europa a criar inovação, quando tens equipas de investigação fantásticas a produzir conhecimento cientifico impar no mundo? Os convidados do Conversas Globais também têm esta preocupação.

A Europa é muitas vezes tratada como velho continente, o chamado museu da cultura, arte, história. Contudo, associamos tal ao passado do que ao futuro. Por isso, a Europa tem de conseguir ter o seu espaço na arena mundial, através da inovação.

É preciso incentivar as gerações futuras ao empreendedorismo, a lidar com novos desafios. O desafio da migração é grande quando se quer criar uma entidade europeia para o mundo. Contudo, a Europa conseguiu-se manter unida nas últimas décadas, mesmo com um Brexit. Por isso, nunca é tarde para começar a ter esse plano para o futuro.

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6 – Porque estamos a trabalhar mais?

Mariana Mortágua foca na sua aparição das Conversas Globais sobre a economia e termina com uma analogia a Keynes. O Economista reflectiu em “As possibilidade económicas dos nossos netos” com a questão: no tempo dos nossos netos será que ainda vai ser preciso trabalhar? Como que é nos vamos ocupar o nosso tempo? Como e que o ser humano se vai realizar quando já não for preciso trabalhar no tempo dos nossos netos? “Os netos de Keynes trabalham bem mais do que se trabalhava no tempo de Keynes

Tal como escrevi neste artigo, é preciso educar para a tecnologia como forma de ganharmos mais tempo para fazer coisas de que gostamos. Não faz sentido termos estas ferramentas ao dispor e trabalharmos mais de 8 horas por dia. Algo está de errado, numa economia que trabalha mais horas, produz menos valor concreto e as pessoas não sentem os efeitos de crescimento. É urgente olhar para os valores atuais e ver de que forma podemos realmente por os netos de Keynes a trabalhar menos horas.

7 – Não há nada a temer na robotização

Fala-se muito na questão da robotização retirar empregos, contudo este também vai criar outros.

Da mesma forma que a indústria automóvel deixou os tratadores de carroças e de cavalos no desemprego, também eles ganharam novas competências para entrar nesse mercado. Por isso, o principal é que haja requalificação das pessoas, para que o ritmo de destruição de trabalhos seja inferior ao ritmo de criação dos mesmos. É por isso relevante profissionalizar educar para a literacia digital e apostar no desenvolvimento das pessoas.

Pedro Santa Clara também desvenda como serão as carreiras nas próximas décadas:

É muito para percebermos ainda que profissões é que vão tornar-se mais ou menos resilientes. Uma das coisas que sabemos é que vamos ter de educar-nos ao longo da vida, vamos ter de aprender a aprender. Não basta aprender até aos 22 anos e, depois, trabalhar até aos 70, para nos reformarmos a seguir. Vamos ter de voltar a escola, vamos ter de ser capazes de gerir o nosso capital humano e saber quando é que estamos a tornar-nos obsoletos. As escolas, as universidades têm de se adaptar, de ser capazes de inovar.

8 – Portugal pode seguir o exemplo de Israel

Para termos um plano para o futuro, há algum país que possamos ter como exemplo? Carlos Moedas, no Conversas Globais de 8 de novembro de 2019, indica Israel como exemplo.

É verdade que tem um poderio grande, mas Israel é um país pequeno, com nove milhões de habitantes e rodeado de inimigos. E o número de startups a nascer e a crescer lá é impressionante. Portugal tem mais população, mais área e mais recursos, pelo que tem todas as condições para tomar este exemplo e fomentar um ecossistema inovador para o país.

9 – É por isso importante para Portugal se especializar

Já sabemos bem que vivemos de duas coisas (e não é de azeite ou vinho): turismo e exportações. Uma outra forma de Portugal se destacar é através de serviços de saúde a terceira idade: porque é algo que fazemos melhor que ninguém. Considerando a tendência europeia do aumento da esperança média de vida, vamos ter cada vez mais uma população envelhecida e que vive mais anos.

Assim, apostar nestes novos serviços e nos conhecimentos que temos na área de saúde pode ser um possível futuro para Portugal. O que outros especialistas aconselham é Portugal ser mais do que têxtil ou calçado. É preciso focar num segmento de mercado e ser o líder, tal como a Alemanha é líder em carros ou maquinaria. Essa especialização vai grandemente beneficiar o país, se, claro, for planeada.

10 – Portugal tem de começar a planear

José César das Neves enaltece o turismo com um grande sucesso de Portugal. Contudo, indica que não aproveitamos totalmente os sucessos porque não estamos preparados. “De facto, planeamento não é com os portugueses. O grande trunfo é a flexibilidade o grande desafio é a falta de planeamento, planear as coisas e prever aí já não somos capazes. Mas quando aparece uma oportunidade, agarramo-la”

Por isso, para estas Conversas Globais, Portugal pode ter um lugar no mundo, quer seja no turismo, na saúde, na digitalização, no mar. O que precisa é que haja um planeamento para agarrar melhores as oportunidades e distribuir a riqueza de forma mais igualitária para o país. Assim, mais do que investimento, é preciso preparar o futuro.

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