O Meu Novo Trabalho e uma Reflexão Sobre a Minha (curta) Carreira

a minha carreira

Diz que mudei de trabalho – de novo.

Recentemente fui outra vez a miúda nova lá no escritório. No entanto é um desafio profissional completamente diferente. Uma empresa nova, produtos diferentes, objectivos diferentes, uma função nova. Como tudo é ainda novo, estou a passar pelo período de adaptação sem muitas expectativas. Quero poder absorver todas as experiências e conhecimentos, pois desta vez não tenho experiência ou formação para a função.

Estou muito contente com este novo passo da minha carreira e é um passo muito importante. Porque este é o meu terceiro trabalho e por isso já olho para as coisas de maneira diferente.

Com a mudança, fiquei a pensar.

A mudança já nos faz pensar sobre o antes, o agora e o que queremos para depois. Com apenas quatro anos no mercado de trabalho, sei que a reflexão pode ser curta e com pouca experiência, mas há coisas que começo a notar.

Ter uma carreira não é assim tão fácil

O Erre Grande fala maioritariamente sobre Carreira e apesar das várias ideias que escrevo, ainda não tinha definido a palavra «carreira».

Aliás, quando comecei a pensar sobre o assunto, percebi que a minha definição de carreira é muito vaga. Com esta nova mudança profissional e sendo a minha terceira experiência, notei que cresci muito e por isso não sei bem o que é ter uma carreira. Sempre achei que é um percurso, que é uma maratona e não um sprint; que é um caminho com sucessos mas também pedras no caminho e más decisões. Quando se fala de carreira, lembro-me sempre da palavra «progressão». Ter uma carreira é construir um percurso em que cada decisão leva a uma maior progressão, quer seja de remuneração, posição hierárquica, realização pessoal.

E é por isso que é tão difícil ter uma carreira em que existe um fio condutor. É difícil ter um caminho que é sempre a subir, a melhorar, a ter mais experiências e contactos. Como gerir uma carreira fazendo com que consigamos ter experiências enriquecedoras que nos fazem crescer mas que também nos permitem ter ferramentas para termos novas e diferentes experiência ao longo dos anos? Nem sempre é fácil melhorar a vida profissional e manter esse espírito e objectivo de progressão constante. E sinto que o desafio é ainda maior para alguém que está a começar, pois existem tantos caminhos por onde escolher. Mas como a carreira é uma maratona, vamos fazendo, passo a passo.

O mercado está optimista (por agora)

Uma das coisas de que mais me lembro quando comecei foi no pessimismo que existia no mercado de trabalho. Em plena crise, cada oportunidade valia ouro e sentia que ninguém valorizava o seu trabalho. As pessoas cingiam-se a estágios porque era melhor do que não ter nada. Não se dava boas ideias com o risco de ir contra o chefe e ser despedido. Não se pensava em melhorar a carreira porque o conforto era demasiado bom para arriscar.

Nos últimos anos, acho que isso mudou. Pelo menos em 2018, quase todos os meus amigos já mudaram de emprego. Sei que pode ser o facto de estarmos todos na mesma fase e que esta mudança seria natural. Mas há mais que isso. Vejo colegas de faculdade a emigrar; a mudarem de indústria; a fazerem experiências de voluntariado; a tornarem-se freelancers responsáveis e independentes. E fazem-no porque querem, porque decidem que esse é o próximo passo para a sua carreira.

É óptimo ver que os jovens estão mais confiantes nas suas capacidades e constróiem as suas vidas profissionais. O mercado está positivo por agora e é importante não desmoralizar e não perder o sentido de auto-confiança. Somos bons profissionais e há que trabalhar em boas condições e boas empresas que acrescentem valor no mercado e também na nossa carreira.

Vendem muito mal os Millennials, porque não somos assim tão maus

Eu sou millennial com todos os esteriótipos que isso possa ter. E há muitos, de facto. Dizem que somos presunçosos, arrogantes, preguiçosos e que não respeitamos a autoridade. Contudo, já tive a oportunidade de falar com pessoas da minha idade que estão felizes nas suas carreiras e não vejo nada disso.

Não encontro no escritório pessoas que não trabalham e que andam de nariz empinado só porque percebem de tecnologia. No outro dia perguntaram-me em brincadeira se eu não ficavam com bolhas nos dedos de teclar mensagens no smartphone. Respondi que já tinha nascido com os dedos “adaptados” a essa funcionalidade, como os patos nascem com mebranas para poderem nadar.

Mesmo que tenhamos essa vantagem, vejo jovens profissionais e curiosos, sempre prontos para dar feedback, aprender, arregaçar as mangas e trabalhar sem medos. E acho que isso são qualidades boas que um profissional pode ter. A facilidade com a tecnologia faz com que estejamos sempre a melhorar e a aprender. Não temos que memorizar tudo, porque sabemos onde encontrar respostas. Somos curiosos e estamos despertos a conhecer várias temáticas que nos tornam mais ricos profissionalmente. Gostamos de estar empenhados e por isso gostamos de desafios, melhorando a nossa experiência profissional continuamente.

Contudo, temos de reconhecer a experiência a quem a tem.

É verdade que podemos não saber todas as respostas do mundo mas sabemos utilizar a Internet para encontrar essas mesmas respostas. Mas nunca vamos conseguir colmatar aquilo que nos falta quando somos jovens, que é a experiência.

Aquilo que mais aprendi no último ano é que as pessoas mais velhas podem não perceber tanto sobre tecnologia, dados, redes sociais, novas tendências. Mas percebem muito da experiência que têm, algo que o Google nunca te poderá dar. Elas sabem lidar com pesssoas, sabem ter as melhores soluções, percebem o que podes ou não fazer porque têm experiência para isso. Sei que nem sempre é fácil ter uma equipa em que existem diferentes idades e conhecimentos, mas é uma excelente oportunidade para as pessoas aprenderem umas coisas as outras. As pessoas mais novas devem poder querer aprender com as mais velhas e não se precipitarem a achar que sabem tudo. E as pessoas mais velhas devem dar o benefício da dúvida e estar abertas a ensinar o que sabem e a aprender.

A experiência ajuda-nos na troca de conhecimento. As pessoas com mais experiências e os profissionais menos experientes podem criar uma experiência profissional mais rica e benéfica para todos: colaboradores, empresa, negócio.

Não vais gostar de toda a gente e nem toda a gente vai gostar de ti

Esta foi das coisas mais difíceis que tive de aprender, porque eu gosto de agradar a todos. Não é bem gostar de agradar, eu gosto de me dar bem com toda a gente e quando sinto pouca empatia fico chateada por não ter agrado. Mas a verdade é que nem toda a gente vai gostar de ti.

A tua personalidade e a tua pessoa pode não criar empatia com outras pessoas mas isso não tem problema. Pode não ter havido nenhum arrufo, a pessoa pode não ter nada contra ti, simplesmente não dá para criar uma relação com qualquer pessoa. Pode-se e deve-se criar uma relação profissional saudável mas as pessoas não têm de ser amigas.
E tu também podes ter pessoas de quem não gostas. Alguém pode querer dar-se mais contigo mas podes ver que não te dás com aquela pessoa. Não gostava desta sensação porque parecia que se criavam grupinhos em empresas e que se falam mal uns dos outros.

O problema não é criar grupinhos, pois todos nós gostamos de falar com as pessoas com quem temos mais afinidade. O problema é quando se criam atritos ou segredinhos que não ajudam a empresa nem os colaboradores a confiar uns nos outros e a trabalhar em conjunto.

O ambiente em equipa é muito importante para a minha profissão porque não consigo trabalhar em ambientes tóxicos. As coisas podem não estar bem mas não pode haver relações profissionais quebradas, mau profissionalismo e outros.

Assim, há que manter o profissionalismo, criar uma boa equipa, ter boas amizades mas também perceber que não podemos gostar de todos e nem todos podem gostar de nós. E isso não tem problema nenhum porque será sempre assim.

A carreira é uma maratona e eu apenas estou a começá-la.

Sinto que já passei alguns obstáculos mas que os maiores desafios ainda estão para vir. Estar no início pode ser muito entusiasmante porque podemos mudar de ambiente facilmente. Mas também pode causar alguma frustração quando sentimos que queremos fazer tudo rápido. A carreira é uma maratona e por isso há que fazer passo a passo, sem pressas, mas sempre a aumentar o ritmo e a crescer durante a viagem.

São quatro anos de muitas experiências e o melhor está apenas a começar!

Os Jovens Produzem – Se os Deixarem

jovens profissionais e produtivos

A rotina de uma pessoa é simples. Acordar, tomar banho, tomar o pequeno-almoço, ir para o trabalho. Depois, trabalhar, almoçar e voltar ao trabalho. Antes da noite, sair do trabalho, ir para casa, jantar, ver televisão, lavar os dentes e ir dormir.

Muitos de nós vive neste piloto automático e no trabalho não é diferente.

A rotina do trabalho é entrar às 9h e sair às 18h, com uma secretária, um computador, um cubículo, um escritório, uma hora de almoço. Durante anos foi assim que o mercado de trabalho se desenvolveu, quando a agricultura e a indústria deram lugar ao mercado dos serviços e dos avanços tecnológicos. A força laboral era composta por pessoas com conhecimentos técnicos que desempenhavam funções simples, de forma mecânica e rápida, de forma a aumentar a produtividade e diminuir os custos.

Todos sabiam o que fazer, como fazer, e faziam-no durante anos até à reforma. Estudavam, tinham uma licenciatura, encontravam uma empresa e por lá ficavam.

Mas mudam-se os tempos e mudam-se as vontades.

A evolução tecnológica da Internet e dos negócios online mudou muito. As pessoas já nem precisam de uma secretária e podem mandar e-mails pelo telemóvel. Há reuniões que podem ser à distância. Já não é preciso esperar por aquela carta. Como tudo se faz mais rápido, as pessoas podem ter mais tempo para pensar e ser estrategas.

A nova economia vai ser dominada por máquinas que fazem todo o papel operacional. E nós humanos? Nós temos de ficar com a inovação e a criatividade. Nós temos de ficar com o dever de ter uma visão para o futuro para produzir melhor no futuro.

As empresas vão precisar de pessoas que saibam fazer coisas, mas também vão precisar de quem pense sobre as coisas.

A agilidade tecnológica vai pedir pessoas técnicas mas também muito criativas. E os Millennials são mesmo isso.

A nova geração tem os conhecimentos técnicos mas também a parte criativa. Trazem consigo a sensibilidade para a polivalência e para o desenvolvimento constante das soft-skills, capacidades essas tão namoradas pelas empresas por permitirem a um indivíduo adaptar-se a qualquer tarefa.

Mas para essas potencialidades se poderem desenvolver, tem de haver um ambiente que fomente esse desenvolvimento – e para os jovens um cubículo não é esse ambiente.

Vemos cada vez mais artigos sobre a «gestão dos Millennials». Sobre como lidar com a geração que tem conhecimentos, que sabe tudo. Como lidar com uma geração que tem as habilidades e as ferramentas para se desenvolver rapidamente em qualquer ambiente. As suas capacidades são fascinantes para os mais velhos mas as suas atitudes são incompreensíveis. Tal como explicam vários artigos, incluindo este da Forbes, os jovens não funcionam com um 9-to-5, mas isso não quer dizer que sejam preguiçosos.

O actual capital humano quer trabalhar mas não da maneira tradicional.

Para as empresas, a produtividade é criar mais quantidade num determinado espaço de tempo. Para os jovens, a produtividade é criar mais qualidade no tempo que permite a melhor produção.

A produtividade é sinónimo de flexibilidade de horários, pois nem todos atingimos o nosso potencial máximo às horas que nos pedem. Uns trabalham melhor de manhã, outros melhor de tarde, outros melhor de madrugada. Uns melhor acompanhados, uns melhor sozinhos, uns melhor no escritório, uns melhor no café, uns melhor no bar de praia. Enquanto que para as empresas o importante é que haja controlo pelo trabalho feito, para os jovens o importante é que o trabalho esteja feito, independentemente da hora e local a que seja realizado – se o trabalho precisa de estar pronto naquele dia, o trabalho estará pronto.

Esta mentalidade dos jovens não é uma simples rebeldia contra o sistema ou um capricho de quem é preguiçoso. É uma tendência que deve ser vista como uma oportunidade para empresas poderem potenciar capital humano.

O capital humano é mais do que técnico. É criativo, motivado e de excelência, que pode produzir os seus melhores resultados se formados num ambiente diferente.

Há que haver um ambiente que permita ter alguma flexibilidade de planeamento e execução de tarefas. Há que haver outros benefícios que não dinheiro ou carros. Há que haver avaliações de desempenho e feedback constante. Há que haver um planeamente de carreira ativo para valorizar as pessoas. Porque os Millennials vêm mostrar que o mercado de trabalho é mais flexível do que se pensa. Com a multiplicidade de oportunidades e com a longa vida que se tem, para quê ficar numa empresa só porque sim?

O mercado de trabalho está a mudar e as empresas devem acompanhar essa mudança. As funções mudam, os papéis mudam e os profissionais mudam. Os bons profissionais existiam e continuam a existir e são mais jovens. Assim, se trabalha com jovens e quer obter o melhor trabalho que eles possam produzir, dê-lhes trabalho e flexibilidade: seguramente eles iram acabar o trabalho e os bons profissionais vão colocá-lo no patamar que deseja. Basta dar o melhor solo, água e luz, que a flor irá desabrochar.

Há Que Tentar Para Encontrar Respostas

millennials ha que tentar

Passamos as nossas carreiras à procura da resposta para aquela pergunta – o que queres fazer para o resto da vida?

É uma pergunta difícil e não acho que haja apenas uma resposta. Passamos os dias a pensar o que nos dá felicidade ou prazer. Mas a vida não é só felicidade, porque há uma coisa que se chama trabalho.

Sabemos que temos de arranjar um trabalho porque é assim que o mundo funciona.

Sabemos que as contas têm de ser pagas e que precisamos de dinheiro para sobreviver. Sabemos que há empresas, salários, descontos, impostos, rendas, reformas. Sabemos que ninguém nos vai pagar para vermos séries ou passear no parque só porque sim. A renda não se paga numa tarde a jogar Scrabble com os amigos ou a beber sumo à beira mar.

Por isso temos de procurar um trabalho mas também queremos ser felizes ao mesmo tempo.

E lá começamos a busca pelo trabalho perfeito – aquele que dá dinheiro e felicidade ao mesmo tempo.Começa assim uma procura sem fim. Porque a procura pela felicidade é uma luta constante, injusta. Como é possível encontrar o trabalho perfeito se ele não existe? 

Mas em vez de procurar aquilo de que gostamos, devemos saber o que não gostamos.

Há pessoas que sabem desde pequenas o que querem fazer e isso implica coragem e determinação. A coragem para perseguir um sonho e a determinação para persistir nesse caminho. Mas a grande maioria não tem a resposta na ponta da língua e tem de ir encontrando algo que preencha a alma. Isso pode demorar alguns meses ou décadas. Pode demorar uma boa experiência laboral ou cinquenta.

A única forma de encontra a resposta é tentando. Há que tentar.

Há que tentar ter diferentes empregos, diferentes hobbies. Há que tentar conhecer novas pessoas e fazer perguntas. Há que perceber o que as pessoas que são exemplo fazem no seu dia-a-dia e se gostavamos de ter aquilo que eles têm.

Há que tentar encontrar algo de que se gosta. E mesmo quando a encontramos o problema não está resolvido, porque somos insatisfeitos por natureza. Podemos encontrar o que queremos e sermos felizes – mas isso pode apenas durar seis meses ou uma vida inteira. E por isso é que temos de tentar e ir tentando.

Não sei como está a maioria das pessoas da minha idade.

Vejo toda a gente feliz a comprar casa e a ter filhos mas pergunto-me seriamente como se sentem sobre as suas carreiras.

Estão a construir uma carreira ou estão a viver uma carreira imposta? Estão conscientemente a fazer o que gostam ou deixam andar porque o dinheiro faz falta? Estão preocupados em viver dias felizes ou estão na ideia do não-é-assim-tão-mau?

Sei que não é fácil encontrar a felicidade ou saber do que gostamos. Não é fácil escolher uma solução para a carreira. Mas a maioria sabe muito bem do que não gosta. Sabemos dizer o que gostamos de fazer mas também sabemos dizer o que odiamos. Começo a pensar que a resposta esteja aí. A resposta para encontrar uma boa carreira está em tentar e descobrir aquilo de que não gostamos. Posso não saber qual é o caminho certo, mas sei que aquele caminho que tentei não é para mim.

Os Millennials são uma geração que tem mil oportunidades à porta.

O excesso de informação e de possibilidades não nos deixa livres mas sim paralisados. Se posso fazer um bocadinho de tudo, como posso escolher? Se posso ter tudo o que quero, como começo? Se há imensas carreiras que posso ter durante a vida, como saber qual é aquela que me dá felicidade e estabilidade material?

Não sei se há jovens a construir uma carreira com sentido. Não sei se há pessoas que sabem exactamente o que estão a fazer. Não sei se há pessoas tão confusas como eu quanto àquilo que querem / gostam / adoravam fazer. Sei que procurar respostas dá trabalho mas também sei que as respostas só aparecem se tentar. No fundo, não sabemos a resposta a tudo mas sei como a conseguir – a viver, a experimentar, a reflectir, a agir.