menina de braços abertos a olhar para uma montanha

Qual o paradoxo do desenvolvimento pessoal?

Se o desenvolvimento pessoal ensinou-me algo, foi a questionar tudo, inclusive o mesmo desenvolvimento pessoal e o seu paradoxo.

O mês passado escrevi sobre a utilidade do desenvolvimento pessoal. É um tema que me faz reflectir bastante sobre o mesmo, pois ao passar mais tempo a reflectir, ajo menos e continuo sem utilizá-lo como a ferramenta que é.

Contudo, acho que não deve ser desprezível reflectir sobre as ferramentas e as modas do mundo. Porque todos os dias descubro mais uma frase inspiracional, mais um guru com um website com um curso fantástico e mais uma conta de instagram com um speaker para revolucionar a tua vida com o seu programa.

Assim, acho que posso continuar a reflectir sobre o desenvolvimento pessoal. No outro dia, pensei um pouco sobre o paradoxo.

Rob Estreitinho tem uma newsletter chamada Salmon Theory. Acompanho esta rubrica há vários meses e deve ser a única newsletter que ainda não eliminei do meu e-mail, pois tem sempre conteúdo útil. Ele é estratega e fala com pessoas sobre como utilizam a estratégia na sua vida. Outras vezes apenas fala sobre assuntos vários, como se fossem momentos de reflexão.

No mês passado a newsletter do Rob, com o título “Naval Ravikant on freedom”, começava assim:

“Sempre tive uma relação amor/ódio com a indústria da auto-ajuda. Por um lado, eu percebo. A maioria quer mudar as suas vidas, mas precisa de ajuda. Por vezes é a forma como lidamos com uma relação. Ou como arranjamos mais tempo para nós próprios. Outros preferem ler sobre como podem ficar ricos. Outros lêem sobre como viver com o mínimo possível. De um ponto de vista de mercado, a indústria da auto-ajuda é fascinante porque nunca vai morrer – as pessoas vão sempre ter inseguranças. Então qual é o problema? O conselho que tu recebeste é o mesmo conselho que milhões de outros recebem também”.

Rob fala então do que se encontra no paradoxo do desenvolvimento pessoal.

No desenvolvimento pessoal, encontras as mesmas mensagens, mas ditas por diferentes fontes e diversas formas. Sim, quer fales com a pessoa A ou a pessoa B, vais receber a mesma ideia. Sê diferente. Lê mais livros, faz meditação, poupa dinheiro, come produtos naturais. Todos estes conselhos são os mesmos, pelo que podemos pensar que se estas ideias já existem há centenas de anos e continuam a ser partilhadas, é porque são ideias válidas.

O problema é que as mesmas ideias produzem os mesmos resultados – ou até nenhuns, diz Rob. Se todos vamos ser diferentes, vamos ser todos iguais.

Rob explica melhor o conceito:
“Como outras indústria, a auto-ajuda funciona melhor quando é escalável e, para qualquer produto escalável, tem de ser estandardizado. Assim, a resposta de ser diferente e individual acaba por ser a mensagem igual para todos. Noutras palavras, a procura da independência e liberdade individuais podem levar-nos a um caminho em que somos iguais a qualquer outra pessoa.

A auto-ajuda tem uma origem boa. O desejo de melhoramento é uma coisa boa. Mas a forma como chegamos lá – e a nossa procura insana por listas de passos a seguir – é o que me chateia. Algumas pessoas que sigo que podem ser inseridas no campo da auto-ajuda, partilham o seu ponto de vista, com uma nota de rodapé: isto pode não funcionar (ou melhor, faz o que é melhor para ti).”

Surgem assim várias perguntas:

  • Se o desenvolvimento pessoal é trilhar cada um seu caminho, porque seguimos todos os mesmos passos?
  • Se cada pessoa é diferente, então haverá diferentes caminhos a tomar. Então porque queremos só uma resposta?
  • Se só existe uma resposta para o sucesso, como podemos escolher se não há alternativas?
  • Como podemos ser livres, se a nossa forma de sucesso é seguir a mensagem dita vezes e vezes sem conta?

A resposta é simples, mas não tão simples, e é só precisa uma palavra: equilíbrio.

Equilibro é o velho «nem tanto ao mar nem tanto à terra». É o 80/20. É a liberdade com a adaptabilidade. É escolher um caminho, mas ter várias opções. É ter respostas standard, mas saber que as perguntas e as respostas podem alterar-se. Porque mudamos ao longo do tempo.

No fundo, o que Rob quer dizer é que todos os conselhos que nos dão têm um contexto. A ideia não é dizer que vai tudo correr bem, mas que nem tudo vai ser horrível e vamos fazer asneiras atrás de asneiras, como se uma dica de desenvolvimento não resultasse e sabotássemos toda a nossa vida.

Queremos sempre melhorar a nossa vida e tomar boas decisões, mas não é tudo na vida.

O auto desenvolvimento e auto melhoramento são exercícios humanos louváveis. A procura pela felicidade eterna é uma demanda humana desde o tempo da Grécia Antiga. Mas nem tudo na vida é trabalho. Há momentos em que não queremos estar a pensar no próximo passo, mas apenas aproveitar o momento. Há momentos em que devemos perceber que não existem respostas simples e arriscar num caminho. E se esse caminho correr mal, podemos fazer uso de outra constante humana, que é a mudança. Se o caminho não for bom, mudamos e escolhemos outra hipótese.

Assim o desenvolvimento pessoal quer dar “a” resposta, mas é apenas um guia para a nossa vida e que devemos adaptar a nós.

Há coisas que têm respostas simples, outras que têm respostas mais complexas. Há decisões simples de tomar e outras que envolvem mais riscos e resistências. Há bons hábitos que resultam com super estrelas e outros hábitos que resultam para quem está de bem com a vida. O que o desenvolvimento pessoal dá mais do que “a resposta da vida” é o pensamento interior de questionar. O desenvolvimento pessoal dá-nos ferramentas para questionar tudo e percebermos que a liberdade de escolher sempre o que achamos ser melhor para nós é a maior bandeira da humanidade.