Uma millennial sai de casa parte II – as tarefas domésticas são para dividir

Esta é a segunda parte de uma millennial que sai de casa dos pais. 

Esta é a segunda parte de uma millennial que sai de casa dos pais. Podes ler a primeira parte aqui

Já se passou um mês e as coisas têm corrido bem e também há outros desafios a ter em conta.

Sair de casa dos pais implica abdicar da vida de adolescente. Percebes assim aquilo que os gurus do empreendedorismo falam todos os dias: as coisas não aparecem feitas, tu tens de por mãos à obra.

O mesmo princípio aplica-se à loiça e à roupa. 

Chegar a casa é ter um momento de partilha, mas nem todo o tempo é livre. Há que cozinhar, fazer máquinas de roupa, deixar a roupa a secar, recolher a roupa, passar a ferro. Para além de ter de arrumar toda a divisão da cozinha, possivelmente aquela que tem mais sujidade. A loiça é sem dúvida aquilo em que se gasta mais tempo, mas o seu uso é muito reduzido. É só virarmos a cabeça e quando olhamos cresceu uma pilha de talheres e pratos sem darmos conta.

Sentar o rabo no sofá já não é uma realidade, mas sim um sonho. Ter fins-de-semana livres para passear é uma coisa planeada e não espontânea. Porque por mais que gostemos de passear, ver pó no chão da sala também incomoda e há prioridades que se têm para viver num espaço.

Assim todas as skills de gestão de e-mails têm de entrar em ação na esfera doméstica. Mas não é só o meu tempo que tem de ser gerido, o dele também.

Como Millennial a igualdade de géneros está bastante acentuada em mim.

Não conseguiria conceber viver com alguém e ser eu a fazer todas as tarefas domésticas. Assim, desde o primeiro momento que houve divisão de tarefas. Aproveitamos para fazer as coisas em conjunto, outras vezes em separado. Sempre tentando ter mais tempo livre juntos. Mas quando não é possível, é bom saber que podemos contar com o outro.

Esta realidade pode ser bastante simples, mas acredito que existem muitas casas em que, com o tempo, a mulher emancipada acaba por cair em construções sociais e a tomar conta da casa porque ela faz melhor do que um homem não ensinado.

Não me interessa se eu lavo a loiça em 20 minutos e ele demora uma hora – o que me interessa é que a loiça fique limpa, por isso, ele tem de participar também nisto.

Outro desafio de viver juntos é ver que os últimos dias do mês deixaram de ser de alegria, mas sim de choro, antecipando o que vem a seguir.

Se antes receber o ordenado era uma boa constatação de que se poderia ir experimentar o novo Sushi ou ir a um espectáculo, hoje sabemos que o final do mês traz o início de um novo mês. E com ele aparecem os débitos diretos, que comem tudo o que recebemos, dia após dia. É algo que já fazia parte, mas podíamos não estar preparados para tal. A renda, a água, a luz, o gás e o wi-fi têm um preço.

O meu problema não foi receber contas, mas foi perceber o quão difícil era pagar tudo se o fizesse sozinha. Mesmo que a renda fosse metade do que é, é realmente difícil apenas um ordenado aguentar muitas despesas, acrescentando alimentação e transportes. Sem esquecendo a poupança, essa que é automática e que pode reduzir o saldo à ordem, mas que é fundamental para hoje e para amanhã.

Quanto aos amigos e à família, estar fora é uma desculpa para cobrar almoços e jantares.

Conversa-se todos os dias, combina-se o próximo encontro e se não for pedir muito, ainda se leva marmita para o dia seguinte. Menos uma refeição em casa, menos loiça suja. 

Estes são alguns dos desafios que temos enfrentado por agora. Quando me perguntam se lido bem com as meias espalhadas no chão, eu é que sou a pessoa que empilha roupa suja num cantinho. Eu é que deixo a porta do frigorífico mal fechada. Eu é que tenho a destreza de me cortar com a faca do pão e levar dois pontos.

Se calhar, o desafio não é viver com um homem, mas sim viver com uma pessoa desastrada que vive a vida no «quase», achando que a gravidade está sempre do seu lado, todos os dias.