Uma Millennial sai de casa – Parte I

Quis escrever algo da minha experiência pessoal porque quis aproveitar este momento. Esta é a primeira parte da série “Uma Millennial sai de casa”.

Se esperasse demasiado tempo depois de ele acontecer, os meus sentimentos já seriam em perspectiva. Afinal quantas pessoas conseguem dizer com certeza o que sentiam quando saíram da casa dos pais?

Ao estar a viver este momento decidi seguir os conselhos do Gary Vee, esse guru da internet, das redes sociais, do marketing digital, e documentar o momento.

Esta é a primeira parte de um breve diário de quem está a sair da casa dos pais.

Sair de casa dos pais teve como primeiro reação naturalidade e liberdade. Finalmente chegou o momento de ter o nosso espaço à nossa maneira.

Olhava muitas vezes para a casa dos meus pais e sentia que podia mudar tudo se a casa fosse minha. No fundo, queremos a diferença para parecer mais nossa. Emoção: entusiasmo.

Neste contexto sair de casa foi acompanhada, o que levanta todo um outro tipo de questões. As emoções que se pode partilhar quanto casal que vai viver junto (e com os dois em casa dos seus pais respectivamente) foram discutidas durante meses, como se fosse um plano de como seria a vida a dois de forma a que a independência e o namoro não fossem afectados – tudo vai melhorar, desde que estejamos prontos a isso.

Contudo, o primeiro desafio foi este: como arrendar uma casa em pleno 2019 no concelho de Lisboa.

O ano passado ainda se arranjava, mas com o crédito super baixo e a falta de oferta tornam um cubículo de 20m2 num palacete que vale 1000 euros por mês. Exagero, mas a ansiedade financeira apodera-se de uma pessoa.

Como encontrar uma casa decente em Lisboa em 2019?

Também comecei a pensar como o meu estilo de vida iria mudar, uma vez que a renda ia ocupar uma fatia significativa do meu salário. Não podes ir jantar muitas vezes fora. Poupar para viagens ou para coisas de decoração? Como manter um fundo de emergência?

Fazer as contas certamente ajudou a tomar controlo da situação – se não há dinheiro, então não se gasta. 

Para primeira casa tínhamos a vantagem que não éramos esquisitos, mas 20metros quadrados não é vida para ninguém. Mas relativizar: não é grande, mas é uma casa. Não é uma casa que vias no Pinterest, mas é uma casa. Nós cabemos lá os dois, é uma casa. O que interessa é vivermos juntos, nem sabemos bem o que gostamos.

Assim começou a saga de ver anúncios. As mobiladas são mais caras, mas sem mobília implica compras que podem chegar rapidamente aos 2000€ (pensar colchão, cama, sofá, frigorífico, microondas, mesa, cadeiras, etc). Tivemos sorte (sublinha sorte muitas vezes), pois arranjamos uma solução prática e que dava para os dois. Assim, o primeiro susto estava despachado com a assinatura do contrato.

Passávamos assim para a parte que dá mais trabalho: as mudanças e as compras.

Estive durante vários dias a compôr roupa, sapatos e outros pertences. E só me irritava com a quantidade de coisas que tinha – tenho tanta tralha que achava que precisava e se calhar não preciso. 

Quando temos coisas queremos levar tudo connosco, mas quando temos tralha não sabemos o que fazer. A regra dos 80/20 aplica-se mesmo a tudo na vida. Porque temos tanto, porque queremos preencher tudo, porque é que o espaço vazio não é preenchimento por si só?

Por esta altura continuo a achar que começar do zero era mais fácil, só que não tenho milhões de euros na conta, pelo que tenho de jogar com o que tenho. Contudo, ainda faltavam mais coisas, por isso há que ir comprar.

Começar do zero dava mais lugar à imaginação, mas já ter alguns móveis ajudava na poupança. Contudo, não escapámos a umas quantas idas ao IKEA. 

Eu adorava ir ao IKEA, quando não comprava nada. Na tarde que tive de efectivamente ver coisas, escolher coisas e comprá-las, quis jurar que não voltava mais lá.

A quantidade de estímulos visuais assusta uma pessoa que quer só o básico para viver. Mas no século XXI o básico para viver deixou de ser básico. Há imensa coisa que achamos que qualquer divisão deve ter, mas que não faz falta nenhuma. O próprio conceito de IKEA é «a decoração é muito básica», mas acho que é tudo mito. Se alguém vos enganar na vida, pensem que o IKEA não é vosso amigo. 

As compras trazem algo ao de cima que são decisões. Sou demasiado prática para pensar em muita coisa e por isso sou aquela pessoa que a primeira coisa que vê à frente serve. Coisas são coisas e há sempre forma de remediar. Contudo, em casal e na primeira casa, não sabemos bem o que realmente faz falta ou o que gostamos mesmo. A casa-de-banho é de uma cor e as toalhas de outra? De que cor vão ser os lençóis de cama? Os pratos são de que formato?

É nestas alturas que gostava de ativar o meu modo «delegar». Alguém que miraculosamente escolha o que eu quero e que faça as compras por mim. Que arrume a casa como quero, sem me chamar. Gostava que a Mary Poppins fosse real para poder dar uma mãozinha nisto. 

Mas se há coisa que aprendi é que dá gozo sermos nós a criar o nosso próprio futuro.

E por isso é que se investe muito numa casa, porque se quer as coisas ao nosso gosto. O nosso gosto é tramado nesse sentido. Porque não estamos a decorar uma casa, estamos a pensar em construir um cantinho só nosso.

Nos dias antes da mudança, estava a pensar como as coisas estavam apenas meio feitas, mas no dia da mudança notei como tudo iria ficar bem. Com tudo a funcionar, água, gás, telecomunicações, tornou-se mais fácil viver e de chamar uma casa. De facto, vivemos com o suficiente e há que não stressar muito.

Esta foi a primeira parte da mudança de uma Millennial. Ansiosa pela segunda parte?