ERRE GRANDE

Porque trabalhamos mais quando há tecnologia para trabalhar menos?

A tecnolgia traz a vantagem de perdermos menos tempo em determinadas tarefas, então porque é que andamos a trabalhar mais?

No outro dia postei este artigo do jornal económico, que “eu visto a camisola, mas”.

Num dos parágrafos, falava sobre a mudança de paradigma, de que já não podemos falar em horas de trabalho, mas sim em resultados. Mais horas não implica mais produtividade, como diz a autora Patrícia Araújo, Docente IPAM Porto/Universidade Europeia.

“As 40h ou 35h terão de acabar para os trabalhadores do conhecimento – mas está difícil as empresas saírem do registo de trabalho=horas e passar para trabalho=resultados. É outra epopeia ser criativo e inovador quando se está “pregado” (daí a palavra emPREGO”) a uma secretária oito horas por dia, e regido por princípios que se aplicavam apenas ao trabalho manual e repetitivo.”

Esta afirmação parece-me o futuro, até que a Mafalda, do projecto mindresearcherdiary comentou e bem uma outra ideia. Diz: “sendo que o abandono das horas é um pau de dois bicos. Atenção que sou super a favor, mas muitas vezes também resulta nas pessoas terem muito mais trabalho do que deviam”.

Gosto sempre que haja um comentário contra uma opinião (quando digo contra, não é hater, é uma outra perspectiva). Neste caso, concordo com a Mafalda. 

Vivemos durante muito tempo com a dimensão temporal ligada ao trabalho, fruto da era industrial. Se quatro horas de trabalho produzem 100 unidades, então 8 horas de trabalho produzem 200 unidades. A matemática estava do lado dos fabricantes, que se empenharam em optimizar os seus processos para fazer mais em menos tempo. Contudo, o tempo era sempre a variável rainha. Se havia um atraso numa entrega, há que redobrar os turnos (ou seja, colocar mais tempo de trabalho).

Atualmente, este paradigma traduz-se no «sair depois da hora». Quem sai do trabalho depois das 18h, irá produzir mais. Quem trabalha mais horas, é mais bem sucedido. Contudo, esta falácia pode levar a cada vez mais casos de burnout. Ou seja, estar mais horas no trabalho não dá mais de 200 unidades, não se traduz em mais produtividade.

As novas tecnologias demonstram bem como o tempo deixou de ser factor. Aquilo que impede as empresas de evoluir são mesmos os seus procedimentos.

Se antes uma carta de apresentação tinha de ser enviada à mão, hoje temos o e-mail para isso. E se antes tínhamos de enviar e-mails um a um, hoje temos plataformas de e-mails em massa com dados interessantes a ser analisados.

Estamos a caminhar para a simplificação de trabalhos manuais pelo que com as mesmas oito horas diárias, um colaborador pode fazer mais. Seria assim expectável que pudesse dar vazão a tudo e ir para casa descansado. Contudo há cada vez mais coisas para fazer, sem aparente motivo.

Fala-se então que o problema é gestão de tempo, mas por experiência, noto que a falta de tempo deve-se a duas coisas: falta de alinhamento de prioridades e processos pouco eficientes.

«Só se gere aquilo que é medível», diz-se. Quem não sabe quais são as suas tarefas não sabe como gerir o seu trabalho. Contudo, entre tantas tarefas, há umas mais importantes e outras menos importantes. E ainda há a urgência das mesmas, em que tudo é para ontem.

Quem define a importância das mesmas? Quem diz que A é mais prioritário que B? São as chefias que têm de passar esse estabelecimento de prioridades.

Se um colaborador está atrapalhado, o líder deve ajudá-lo a retomar o foco mostrando-lhe quais os resultados que deve atingir. Um colaborador que saiba gerir bem o seu tempo irá ter melhores resultados.
Há ainda a segunda parte da equação, que influencia bastante a primeira. Um colaborador pode ter noção das suas prioridades, mas vê-se confrontado com processos poucos optimizados.

As tarefas do dia-a-dia podem ser «pensantes» ou «elaborantes», por assim dizer.

E cada vez mais notamos que as tarefa elaborantes são demasiado complexas, com passos idiotas que poderiam ser alterados com uma outra metodologia, uma outra ferramenta, uma outra aplicação. Assim, temos colaboradores demasiado focados em tarefas de execução de levam a maior parte do tempo e tarefas pensantes realmente importantes que são deixadas para quando não há tempo (e por isso não recebem a devida atenção).

Numa era em que a tecnologia nos permite fazer menos e pensar mais, como estamos a fazer mais e a pensar menos?

De facto, estamos a sofrer uma transformação brutal e estamos a adaptarmo-nos. O desafio é a digitalização total das empresas e da vida em geral. Embora sabendo que a nova era levantar várias questões éticas que têm de levar muito tempo a serem consideradas. 

Ainda assim, este problema é atual e está a ser vivido por vários seres humanos em todo o mundo. Criou-se uma sociedade em que a tecnologia nos liberta de trabalhos manuais, mas trabalhamos mais do que antes. A conexão imediata e total não pode servir de desculpa para trabalhar mais. Deveria ser sim a razão para podermos resolver problemas de forma mais fácil e ter negócios optimizados.

A tecnologia é uma ferramenta para que as pessoas possam focar-se no seu trabalho pensante e não a colocar na agenda mais uma tarefa medíocre, mal pensada e até mesmo desconhecida. Aposto que há imensos chefes que não fazem ideia do dia-a-dia da sua equipa e que se estivessem 30 minutos a ver, agoniavam-se com os processos.

Assim, há que trabalhar do lado dos colaboradores e do lados das chefias. Do lado dos colaboradores, há que incrementar as soft skills. A gestão de tempo, a mediação de conflitos, a tomada de decisões para poder gerir melhor o seu dia. Do lado das chefias há que treinar a tomada de decisões estratégicas e o pensamento crítico para a optimização total do negócio. O grande objetivo é sem dúvida reter o melhor talento humano para a próxima era.

Para trabalharmos menos, há que optimizar mais. Todos podemos fazer melhor, porque nem em 2050 o dia vai ter mais de 40 horas.