ERRE GRANDE

Hoje em dia, ainda vale a pena ter uma licenciatura?

Vejo em muitas redes sociais opiniões a favor e contra a ida para a universidade. No mercado em que vivemos, ainda faz sentido ter o canudo?

No atual mercado de trabalho, em que se previligia as competências adquirias do que propriamente ter um diploma na mão, muitas são as pessoas que se perguntam se aos 18 anos ainda vale a pena ir para a universidade.

Existem algumas razões porque se coloca esta questão em cima da mesa.

Durante o período de crise, que ainda não está esquecido, viu-se como milhares de desempregados eram licenciados e como jovens a iniciar-se no mercado de trabalho tinham de começar a ganhar experiência por estágios não remunerados. A lenta subida de ordenado na maioria das profissões também não ajuda ao debate. Ou seja, para que serviu o canudo nestes tempos?

Além disso, o próprio papel da Universidade está a mudar.

Infelizmente o sistema de ensino não pode evoluir ao mesmo ritmo que o mercado.

Tal faz com que pareça desactualizada e atrasada face às novas dinâmicas do mercado. Com um maior incentivo a criação de start-ups tecnológicas, a internacionalização e a criação de microempresas, a univerdade não parece ser um terreno fértil para empreendedores.

Outra principal razão de desconfiança da universidade é que muitas pessoas acabam por fazer carreira fora das áreas de que estudaram, eu inclusive. Ou seja, é natural vermos percursos profissionais em que o ramo da licenciatura influenciou zero. Na minha área de Jornalismo, existem pessoas a trabalhar em Marketing (o oposto do Jornalismo, ainda assim uma área da comunicação), gestão de eventos, gestão de recursos humanos. Tudo isto fruto de formações pós licenciatura que ajudaram a segmentar o caminho.

De facto, a licenciatura e o mestrado já valeram mais às pessoas.

Se na altura dos nossos pais ir para a universidade era um sinal de conhecimento, excelência e já dava o nome de «Doutor», a minha geração já o viu como um passo natural. Para nós, o caminho era 12 anos de estudo e 3 anos da faculdades. Alguns jovens jáfazem mestrados integrados, por isso o caminho do estudo extende-se para lá dos 20 anos.

Contudo, em Portugal, o canudo ainda é muito valorizado. O acesso massificado à universidade é visto como uma referência do desenvolvimento do país, havendo recentes leis para os alunos de técnico profissional entrarem nas universidades sem fazer exames nacionais, por forma a massificar ainda mais o acesso.

Com estas razões prós e contras, como responder à questão? Depende da forma como olhas para a faculdade.

Se me perguntares se vale a pena ir para a faculdade? Sim, vale a pena ter uma licenciatura, pois deves vê-la como uma ferramenta para ajudar no percursos profissional que queres ter.

Se a tua área de escolha necessita de conhecimentos técnico-práticos, como as engenharias, é necessário ires para a universidade adquirir esses conhecimentos. Existem poucos cursos técnico-profissionais e alguns cursos existem com apoios universitários. Assim, a universidade é o ponto de conhecimento destas áreas e sem esse conhecimento dificilmente vais poder exercer em algum lado.

O mesmo se passa com Advocacia ou Medicina: o conhecimento técnico é feito na Universidade, pelo que deves ir lá.

A universidde também é útil para conseguires te rum melhor salário. Vários estudos em Portugal mostram que um licenciado ganha mais do que um não licenciado. A discrepância salarial pode ser cada vez menor, mas começar com a licencitura no mercado trabalho permite-te passar uns degraus à frente.

A principal razão porque deves ir para a universidade é porque ela uma ferramenta para o início da tua carreira, e não um fim da jornada.

Este é possívelmente o ponto que muitos se esquecem. O mundo mudou, a universidade mudou e nós temos de nos adaptar.

Se antes a licenciatura era a porta de entrada para uma carreira de 30 anos que já não existe, hoje é um ponto de partida, uma base para iniciar uma carreira profissional, independentemente da área.

A licenciatura deve ser apenas a experiência inicial que temos de determinada área, mas faz ou determina pouco a carreira. Este diploma deve ser complementado com redes de contactos, formações e cursos mais breves, leituras complementares, escrita de artigos sobre o tema. A licenciatura não nos torna profissionais apenas nos dá alguns conhecimentos relevantes.

Para quem esta a trabalhar fora da área da licenciatura pense realmente no que ganhou com a experiência…Não retirou nada de lá?

Nenhum contacto, nenhuma experiência, nenhum evento que moldou a tua visão, nenhum professor que te mostrou um caminho alternativo? Duvido que assim seja.

No meu caso nunca exerci o curso que tirei, mas falo muito sobre os Media, pois percebo como funciona o meio, vejo jornais na televisão para perceber que ângulos dão às notícias e de que forma isso influencia o pensamento da sociedade, escrevo muito e estou atenta ao discurso das pessoas pois aprendi isso tudo na escola de comunicação. Posso não escrever notícias hoje, mas adquiri bons conhecimentos que podem mostrar os seus frutos apenas mais tarde.

Já para os empreendedores a licenciatura pode ser uma experiência castradora, mas pode ajudar à mesma no teu caminho.

Assim o meu conselho é que experimentem um curso mais geral para poderem diversificar a sua experiência. Gestão, Marketing, Finanças ou sociologia podem parecer opções sem sentido, mas são as áreas gerais que te podem dar as melhores ferramentas para o teu dia-a-dia.

No fundo não podemos encarar a licenciatura como um fim mas como tudo aquilo que encontramos na vida – uma ferramenta. Para o mercado português, o diploma académico é uma ferramenta útil para encontrar um primeiro trabalho e obter salários melhores (apesar de a diferença ser menor do que há 30 anos).

Para efeitos internacionais existem também áreas de engenharia que pedem este requisito como forma de obter oportunidades de treinar o espírito crítico.

Assim, deves ver a faculdade como uma ferramenta útil para a tua vida. Utiliza-la para as tuas ambições. Se ainda não tens nenhum objetivo traçado, pode ser a experiência que te vai dizer se aquilo é ou não para ti. Se achas que não é para ti, percebe como podes desenvolver as tuas competências e acrescentar valor ao mercado, para uma carreira sempre a evoluir e mais feliz.