Desmistificando 7 factos sobre os Millennials

Vamos falar de Millennials, mas vamos falar sobre aquilo que é mais verdadeiro. Neste post, pego em alguns mitos e falo a verdade que conheço.

Este exercício foi um pouco anormal, mas já sabem que gosto de falar de Millennials e por isso aproveitei a oportunidade.

Sou Millennial, mas não quero achar que falo pela minha geração.

Cada vez há mais notícias sobre esta nova geração e como está a mudar o local de trabalho. Esta mudança é muitas vezes incompreendida pelas chefias mais velhas, o que origina algumas ideias pré-concebidas que podem não ser de todo verdade.

No último mês encontrei o artigo com o título promissor «Os millennials exigem novos líderes». Já foi publicado em 2016, pelo que espero que haja mudanças de opinião. Ainda assim, há algumas ideias mal exploradas que gostava de desmistificar.

Vou pegar então em algumas afirmações e contextualizá-las da melhor forma. Pode parecer defesa, mas não é. Há vários factores que tornam esta geração como é e ao tomar as rédeas destes comportamentos, muitos deles são inconscientes e também imaturos – portanto devemos vê-los para características de jovens nervosos e que com o tempo consegue-se amadurecer.

Isto é também apenas um exercício. Ou seja, não é para dizer o que está mal, mas sim tentar perceber como podem olhar para mim de uma certa maneira por fazer parte de uma geração que vive o digital de forma mais natural que gerações passadas. Quero assim entender o que podem falar de mim, criar empatia, colocar-me nos seus lugares para também eu fazer a minha auto-reflexão.

Os millennials são sobretudo colecionadores de experiências – FACTO

Sem dúvida! Ao contrário de outras gerações, os bens materiais podem não dizer nada, uma vez que perderam o seu valor na crise económico-financeira de 2008. A sociedade consumista mostra-nos que o ciclo de vida de um produto é mínimo, pois a versão atualizada sai já amanhã.

Coleccionar coisas não traz nenhum valor, mas as experiências são eternas. Com a facilidade de realizar viagens a bons preços, não admira que os jovens queiram cada vez mais explorar o mundo.

Têm uma lealdade diferente em relação à empresa. Estão menos tempo nas empresas. Permanecem enquanto têm um sentido de missão. Depois saem. – MITO

Este ponto tem alguma verdade, mas não está de todo bem explicado. De facto, os Millennials sentem que as empresas para as quais trabalham têm de acrescentar valor à sociedade e não apenas fazer dinheiro por dinheiro. Pode ser inconcebível para alguns jovens desta geração trabalhar para a indústria do petróleo ou tabaqueira por questões ambientais e de saúde, respectivamente. Contudo, a lealdade para com uma empresa é um ponto diferente.

A lealdade para as empresas é menor, pois já não existem trabalhos para a vida e, com algumas experiências traumáticas dos anos da crise, em que trabalhava-se a custo zero e era-se dispensado sem explicações, os papéis inverteram-se. Ao perceberem que não se pode esperar lealdade das empresas e com um mercado cada vez mais dinâmico, passou a ser mais lógico trocar de trabalho e não dar a lealdade/compromisso que havia entre empresa e empregado para a vida toda.

No fundo, a falta de lealdade não é uma atitude puramente Millennial, mas sim uma reação ao mundo complexo que encontraram quando saíram para o mercado de trabalho.

Desvalorizam os símbolos de estatuto tradicionais. São mais igualitários. Os títulos não os impressionam – FACTO

Este é um ponto que acredito que não seja fácil para as lideranças gerirem com os mais jovens. As hierarquias não significam nada para os Millennials, pois no final do dia todos somos pessoas com os mesmos hábitos.

Todos usamos Whatsapp no trabalho e todos passamos alguns minutos do dia a ver o feed do Facebook e do Instagram. O CEO é tão humano como o estagiário, pelo que o poder e a liderança impõe-se mais pela empatia do que no título. Mais uma vez, como reflexo da crise e da percepção de que nem tudo o que parece é, um bom perfil do LinkedIn com um cargo todo pomposo em inglês pode não significar nada quando realmente lidamos com a pessoa no escritório diariamente. Estar de fora, entrar no mercado e depois perceber realmente como funciona faz com que deixem de idolatrar o que outras gerações gostavam.

Não aceitam um poder baseado em conhecimento – MITO

Aqui só posso falar por mim ou por Millennials que já têm alguma experiência. Cada vez mais com a especialização e a guerra do talento, nota-se que há poder no conhecimento – aliás, a forma de poder não vem do título na empresa, mas sim no poder de influência e do conhecimento.

Os Millennials conseguem seguir mais facilmente alguém que demonstra o seu conhecimento porque já teve no campo e sabe como as coisas acontecem. Cada vez mais vemos que o conhecimento está na Internet e que deve ser aproveitado.

Mas quando se tem três, quatro, cinco anos no mercado de trabalho, percebemos que os exemplos a seguir são aquelas pessoas que têm conhecimentos de várias fontes: livros, conferências, rede de contactos, artigos de blog e experiência. Maioritariamente experiência. Se o conhecimento pode ser encontrado na Internet, tal faz com que não idolatram tanto «os mais velhos». Mas sem dúvida que um Millennial vai seguir aquele que tem mais conhecimento e que o demonstra todos os dias.

São a geração mais educada de sempre – FACTO

Não há estante grande suficiente para pendurar os certificados de tudo aquilo que vários Millennials estudaram ao longo dos anos. 12 anos de ensino básico, um com certificado técnico-profissional; três anos de licenciatura com Erasmus e estágios à mistura; dois a três anos de mestrado; certificado de inglês no campo de férias super Y; aulas de espanhol na Catalunha; estágio de Verão nos EUA, etc.

Somos a geração que estudou a vida toda, tendo acesso a todo o tipo de cursos offline e online à escala mundial. O conhecimento técnico é sem dúvida algo que está ao alcance.

Valorizam a qualidade das relações – FACTO

Poucos mas bons é uma frase antiga e continua a fazer sentido. Apesar de se viver nas redes sociais e na gratificação instantânea, os Millennials só privam com um determinado grupo de pessoas. Há mais a tendência para dizer que não a relações tóxicas, há mais o impulso de deixar de responder quando não se gosta. O tempo é tudo pelo que se o tempo não está a ser bem aproveitado, não se vai insistir nessa relação.

Já no local de trabalho, há a clara distinção entre colegas e talvez amigos. As relações no trabalho diferem pela qualidade do diálogo. No fundo, podemos todos seguir-nos nas redes sociais, mas amigos são poucos.

Têm livre acesso ao mundo. Podem estar em qualquer lado a fazer o que quiserem. São móveis e flexíveis. Precisam menos da empresa do que as gerações anteriores. – FACTO

Este pode ser o primeiro ponto que as empresas têm de perceber. Os Millennials quando vão a uma entrevista, não estão a competir com outra empresa, mas sim com o resto do mundo. As hipóteses de trabalho não se cingem apenas às empresas da cidade onde vivem. Podem mudar de cidade ou de país. Podem ficar no país e trabalhar remotamente para uma empresa estrangeira. Podem lançar o seu próprio negócio online e não terem de ir a entrevistas. Podem fazer consultoria a todos os níveis. Assim, o mundo está cheio de hipóteses para fazer um rendimento, se se colocar o devido esforço e conhecimento. A flexibilidade é a palavra de ordem para perceber esta nova geração.

Querem tudo já. A velocidade conta. Eles não têm paciência para esperar 10 anos para progredir. – MITO

A última falácia deste artigo. O próprio Simon Sinek explica muito bem o porquê deste imediatismo dos Millennial, que é visto como arrogância e impaciência (eu chamo-lhe apenas imaturidade). De facto, a gratificação instantânea das redes sociais veio dar a falsa sensação a esta geração de que tudo é possível com um clique.

Sinek, no seu famoso vídeo com milhões de visualizações, vai mais longe. «Os Millennials foram ditos toda a sua vida de que eram especiais – mas não são, são normais». Têm o mundo digital a seus pés pois sabem navegar nele e têm a melhor educação de qualquer geração, mas na prática todos somos estagiários quando começamos.

De facto, parece que os Millennial não têm paciência e que querem resultados rápidos. Se não os tiverem, saem e vão para a próxima empresa que lhes der o máximo benefícios. Isto não é um sintoma da nova geração, é apenas um sintoma de qualquer geração jovem que está a começar no mercado de trabalho e ainda tem de crescer.

A falta de paciência não tem a ver com a falta de progressão, mas sim com a falta de evolução e adaptação das empresas. A transformação digital foi feita no seio familiar e individual, mas as instituições e as empresas ainda estão muito atrás. Ou seja, somos habituados a crescer em determinados contextos e chegamos ao local de trabalho e esse ritmo não é acompanhado. A evolução pode ser muitas vezes travada por lideranças retrógradas, profissionais sem conhecimento, hierarquias pouco dinâmicas e incompreensão do mundo digital (ps – as auditorias do Congresso dos EUA ao CEO da Google mostram mesmo que há políticos que não sabem como é que a Internet com mais de 30 anos funciona).

Com isto, digo-vos que se encontrarem um Millennial impaciente, digam-lhes o que a vida vai dizer mais tarde:os resultados demoram tempo.

As carreiras demoram tempo. O conhecimento, a experiência, o pensamento estratégico, o profissionalismo e o sucesso demoram o seu tempo. Fazer um like numa foto é um falso sucesso e a programação de um website é só o primeiro passo. A impaciência não é desta geração, mas de todo o jovem que quer agarrar o mundo de forma destemida.

Este artigo ajuda-nos a perceber que, de facto, há características inerentes aos Millennials e outros ditos factos que podem não estar tão bem explicados. Podemos assim conhecer melhor esta geração pela única forma que o podemos fazer: compreendendo o contexto.