Pensar será a skill do futuro

A automação parece ser a maior ameaça que existe para o atual mercado de trabalho, que irá sofrer mais alterações. Ou será que vamos perceber o que realmente estamos aqui a fazer?

Não há dúvida de que o mercado de trabalho mudou bastante nos últimos 30 anos.

Antes os meus pais poderiam ir para a faculdade, ter um canudo de uma área, entrar numa empresa, ficar lá a vida toda, fazer diversos papéis ou ficar apenas num departamento, subir na carreira, ganhar mais dinheiro progressivamente e depois esperar pela reforma.

Os empregos eram feitos para a vida e atualmente isso já não é verdade.

A tecnologia mudou muito a maneira de pensar sobre o mercado de trabalho. Se antes era indispensável ter colaboradores pois a maioria do trabalho era feito manualmente, com softwares e maneiras mais rápidas de desempenhar várias tarefas, passou a ser necessário ter metade das pessoas e uma boa tecnologia.

Antes tinha de haver uma pessoa que recebia cartas de apresentação de serviços (cartas físicas) e respondia por carta também. Depois de uma reunião de trabalho, a acta tinha de ser escrita e copiada para todos os presentes.  Hoje em dia, basta um e-mail e resolve-se tudo em apenas minutos. Atualmente comunicamos mais e mais rapidamente, com e-mails, reuniões, chats, mensagens de texto.

A secretária que trata das cartas deixou de ser necessária e nós tivemos que nos adaptar.

Digo muitas vezes que o título no Linkedin não interessa muito porque todos nós fazemos mais ou menos o mesmo: mandar e-mails e gerir pessoas. Uns na área criativa, outros na área mais operacional, mas quase todos nós temos de fazer isto diariamente.

Assim, no mercado de trabalho de hoje, mais importante do que saber o que se faz é fazê-lo mesmo. Ter um canudo não prova que sabemos fazer uma campanha de marketing, um anúncio no Facebook, uma fatura ou analisar dados no Excel. Antes uma pessoa podia não ter estudado para nada e entrar numa empresa e crescer nas suas capacidades até ao topo. Com as licenciaturas, pediu-se um conhecimento mais específico e técnico, mas não mudou muito. Mudar de área ou de indústria poderia ser um grande risco, não porque fosse difícil, mas porque poderia não ser uma necessidade a longo prazo.

Assim, os recursos humanos era mesmos necessários e a tecnologia veio alterar um pouco o panorama.

A transformação digital chegou em força e mudou muitos processos de trabalho em todas as empresas. Se antes quase tudo era manual, as novas ferramentas permitiram trabalhar mais rápido e de forma mais eficiente. Os softwares, os chats, os e-mails, os documentos partilhados, as reuniões em vídeoconferência podem ter poupado muito tempo às empresas e com isso também pouparam pessoas.

Se antes era necessário haver quatro pessoas num departamento, com as novas tecnologias, pode-se reduzir o trabalho realizado e apenas contar com dois intervenientes, especializados.

Aparece então a preocupação das pessoas: vou um dia ficar sem emprego?

Se continuam a haver pessoas licenciadas, se há cada vez mais empresas, mas precisamos de menos pessoas, o que fazer com o aumento do número de pessoas não qualificadas? E mesmo as que são qualificadas, o que fazer quando só são necessárias 3 pessoas em vez de 5 ou 6?

Se antes era preciso alguém recolher dados, ler, tratar, analisar e fazer um relatório, atualmente uma máquina pode fazer exactamente o mesmo, numa fração do tempo e do custo. E se as máquinas continuarem a evoluir, talvez façam o trabalho todo. E nós humanos, o que podemos fazer.

Se as máquinas automatizarem tudo, faremos o que sempre fomos destinados a fazer: a pensar.

O mercado de trabalho também está a mudar-se para essa visão. A primeira fase era a fase de ter alguém operacional.

Agora, mais do que ter alguém operacional, é necessário que ele seja uma especialista na área. As licenciaturas serviram o seu propósito para criar especialistas em determinadas áreas e os canudos e os CVs serviam para demonstrar essa especialidade. Estamos então a viver a segunda fase.

Contudo, agora não queremos só os conceitos teóricos do especialista, queremos os seus conceitos técnicos, ou seja, as suas skills. As skills são cada vez mais valorizadas e um dia serão mais do que a formação base (a crise do ensino universitário é uma história para outro post, claro!). Desta forma, as plataformas como o Linkedin e as entrevistas de emprego servem para aferir o que o candidato sabe fazer, pois isso demonstra o que consegue realizar no dia-a-dia.

Vamos agora passar para uma terceira fase, a fase do pensamento crítico. O objetivo será criar especialistas e desenvolver as suas skills de pensamento crítico.

As profissões do futuro não é para quem faz mas para quem pensa.

Este pensamento pode ser assustador mas também aliviante, pois diz-nos exactamente para onde o futuro caminha.

As indústrias poderão nunca mais voltar ao que eram, pois tudo será digitalizado. Os serviços vão evoluir e haverá a economia partilhada. Não será preciso ter um carro para conduzir quando temos uma app que nos disponibiliza o carro. Podemos nem ter de cozinhar, pois a comida chega-nos à porta, as compras chegam-nos à porta, tudo à distância de um clique.

Assim, temos de reabilitar todos os recursos humanos para outro tipo de atividades não tão operacionais, mas sim de pensamento crítico e estratégico. As pessoas serão contratadas pelo seu conhecimento e especialmente pela sua capacidade de inovar. Para uma empresa, ter um colaborador não é ter alguém que lhe faz o trabalho. Será ter um asset que constantemente cria valor ao tornar processos mais eficientes, mais ecológicos, mais baratos e que trazem mais resultados.

Acredito mesmo que seremos contratados para pensar. Daí a extrema importância de simplesmente aprender.

Se queremos ser um asset para qualquer empresa nos próximos anos, devemos investir em skills que estão directamente relacionadas com a nossa área e, ao mesmo, investir noutras skills transversais. Para além das já muito faladas soft skills – gestão de tempo, de pessoas, liderança, organização, entre outros – há que pensar em skills pensantes.

Há que desenvolver um mindset de expansão, em que aprender está na ordem do dia. Para aprendermos e desenvolvermos o nosso pensamento, temos de ler mais e perceber diferentes perspectivas. Temos de dialogar com pessoas e fazer perguntas para ter insights. Temos de viajar pelo mundo e conhecer outras realidades. Temos de estudar o passado para compreender o futuro.

Temos de criar empatia com os outros e perceber quais são os seus medos e aflições para podermos resolver os problemas do futuro.

Pensar será a skill do futuro e não sou só eu a dizer.

Mark Cuban, bilionário e investor conhecido do programa Shark Tank, está muito ligado à área da tecnologia, tendo criado a sua primeira empresa antes da bolha dot-com, no início do milénio. Ao comentar quais seriam as profissões do futuro, Cuban não falou de programação directamente: «o que parece ser um bom curso para fazer na faculdade agora pode não ser muito bom daqui a 5 ou dez anos. Prevejo que o futuro seja a automação da automação. O software vai-se escrever automaticamente eliminando os trabalho de desenvolvimento de software, porque é cálculo matemático. Assim, os humanos não serão necessários».

Para o milionário a próxima geração irá invadir as universidades pedindo cursos de artes, filosofia e línguas. Porquê estas áreas? «Porque se as empresas já tem todos os dados de análise que necessitam, são precisas pessoas que tenham pensamento crítico e tragam novas perspectivas para as empresas».

Para Elon Musk, que é conhecido como o milionário irrequieto que disruptou o mercado de empresas com tecnologia do futuro, o pensamento crítico é o primeiro passo que a ciência e a física tomam para criar novas ideias que parecem não ser muito intuitivas. «Qualquer pessoa pode aumentar o seu conhecimento, mas sem imaginação para ir até ao próximo nível, de nada serve o conhecimento», terá dito aos seus funcionários.

Para Bill Gates, uma das maiores referências na revolução informática e no filantropismo, o mercado irá pedir pessoas que saibam matemática, ciências e engenharia, contudo não é de uma perspectiva prática: «penso que será preciso haver conhecimentos básicos, de ciências, matemática e economia. muitas carreiras do futuro vão pedir essas skills. Não é necessariamente para escrever código, mas para perceber o que um engenheiro pode fazer e não pode fazer.»

Somos seres humanos e teremos de trabalhar. Mas mais do que fazer coisas manuais, temos aqui a oportunidade de num futuro próximo desenvolver a nossa melhor função: pensar para criar um mundo melhor.

E tu? O que achas sobre a automação dos trabalhos?

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