Já não somos bons agora, mas somos um sucesso?

Para quem já foi bom no passado, deixa a sua marca na história. Mas será que podemos continuar a pensar em sucesso quando ele não existe atualmente?

Cada vez mais fico a pensar o que é realmente o sucesso. Era a buzzword de há uns anos atrás e acho que ela ainda continua, mas pelo menos para mim, já perdeu a força que antes tinha. E quando noto à volta, parece que mais importante que o sucesso é a felicidade e estes não são mutuamente exclusivos.

Já falei sobre palavras que me lembram sucesso: estratégia, disciplina, percurso, atalhos. Mas no outro dia lembrei-me se o sucesso dura para sempre. Ou se podemos considerar que dura para sempre.

Isto veio-me à cabeça quando notei nos vários exemplos de pessoas que podemos admirar. O mais fácil é lembrar-me de desportistas que já foram bons mas que neste momento podem não estar a ter os resultados conseguidos anteriormente.

O que mais me custa pensar é no exemplo do nosso eterno treinador de futebol português, José Mourinho.

O Mourinho tem uma carreira invejável. Teve em 3 equipas europeias distintas e em cada uma delas juntou uma equipa que venceu os prémios mais importantes do Futebol.

Não fez isto uma vez, mas sim três vezes, em três equipas diferentes de campeonatos distintos e muito competitivos. Ele tornou-se o melhor treinador do mundo e um papa prémios e títulos.

Apareceu quase no anonimato com o FC Porto e nos primeiros anos, mostrou ter técnicas inovadoras de estratégia de jogo. Era notável as suas skills de liderança, pois conseguia formar equipas de jogadores não muito conhecidos, fazê-los trabalhar em conjunto e formando equipas implacáveis.

É inquestionável o que Mourinho conquistou mas o que tem conquistado agora?

Quando foi para o Real Madrid há uns anos atrás, as dúvidas quanto à sua capacidade de conquistar títulos foi posta em causa. Voltou ao clube do seu coração – Chelsea – e entitulou-se o “happy one” mas os títulos não vieram. Mudou-se para outra equipa da liga inglesa e aparece estar a ter resultados duvidáveis com outras equipas.

Para Mourinho, pode ser apenas o continuar da sua carreira e a sua maneira de trabalhar. Mas hoje, os grandes clubes parecem não estar interessados na Magia de Mourinho, se essa magia não se concretiza em resultados. A sua liderança é questionada cada vez mais pelos jogadores e os presidentes dos clubes podem não seguir as suas indicações. As discussões com os jornalistas são frequentes e a relação fica tremida quando os próprios jogadores revelam a dificuldade que têm em trabalhar com o seu treinador.

Sem liderança, sem lealdade, sem respeito – e talvez com alguma teimosia – Mourinho não está a conseguir manter os resultados de outrora.

Assim fico a pensar, o que terá acontecido ao nosso Mourinho?

Admiramos o Mourinho pelo seu exemplo e pelas suas conquistas. Orgulhamo-nos de ter um português a correr as bocas do mundo porque fez o que mais ninguém fez. A sua forma de trabalhar inspirou outros e foi estudada ao pormenor por especialistas, dando exemplos de estratégia, negócio e liderança.

Gosto do Mourinho e sempre apreciei a sua dedicação, o seu trabalho conquistado, a sua irreverência e a sua pouca humildade quando estava a ganhar tudo e a ser o melhor. Se ele estava a fazer melhor que os outros, é bom que ele se auto-reconheça, apesar de poder ser considerado como arrogância.

Acho extraordinário os seus feitos e o Mourinho é extraordinário – quer dizer será que é? Será que ele é um exemplo atual?

O seu sucesso ficará para a história e com toda a certeza as próxima gerações irão falar dele. Mas será que podemos tomar o Mourinho como uma inspiração atual?

Se uma pessoa teve bons feitos no passado será que podemos considerar o seu exemplo atual para agora? Será que só porque somos bons no passado teremos de ser considerados bons atualmente só porque já conseguimos anteriormente? Mas se atualmente não estamos a produzir os mesmos resultados, somos um exemplo, um sucesso à mesma?

O sucesso é atingir objetivos mas também tem um lado de manter a consistência dos resultados.

Quando comecei a pensar no Mourinho, quis pensar no exemplo ao contrário, de empreendedores que mantêm resultados após décadas. O Jeff Bezos, CEO da Amazon, é um excelente exemplo. Sim, ele criou a maior livraria online e transformou-a na maior loja de comércio online do mundo. Criou também o Amazon Prime, com encomendas recorrentes, um serviço de e-mail em cloud e comprou a Whole Foods, para poder ter os maiores supermercados físicos americanos. E é constantemente referido como dos homens mais ricos do mundo. E a verdade é que sabemos que ele não vai parar.

Bezzos é um excelente exemplo de quem foi bem sucedido e continua a sê-lo recorrentemente.

Faz-me pensar que o sucesso não é tanto como chegar ao topo. De mil e umas formas, todos chegamos ao topo ou nos tornamos bons na nossa profissão. E podemos até tornarmo-nos os melhores da nossa área de atuação. E se essa parte já é díficil, pode parecer muito fácil quando é necessário manter a consistência.

Podemos ver isso no exemplo empresarial. Muitas startups conseguem obter investimentos primários e ter algum sucesso mas manter-se operacionais e tentar chegar ao breakeven é o maior desafio que enfrentam. Passar a meta dos cinco anos pode ser algo incomportável para algumas startups e por isso mais de 80% das mesmas não conseguem manter a sua operacionalidade e ser rentáveis, quanto mais continuar a inovar.

Os exemplos de Mourinho e de Bezzos mostram que o sucesso é mais do que chegar ao topo. Depois de se ganhar tudo e ter tudo, o maior desafio é continuar a manter o sucesso e a manter a inovação e criatividade. Mais do que ficarmos com os momentos do sucesso do passado, acredito que num momento de estagnação é necessário fazer uma auto análise e perceber se os métodos do passado estão a ter efeitos no presente e se poderão ter efeitos no futuro.

Por vezes, é a teimosia dos sucessos passados que nos está a dificultar os sucessos do futuro.

Achamos muitas vezes que se resultou no passado, irá resultar no presente. Penso que pode ser este o entrave de Mourinho às suas faltas de resultados. Para mantermos o sucesso e a criatividade, temos de estar sempre num processo de auto-análise e de auto-reflexão para perceber se estamos a melhorar ou como podemos melhorar.

Bezzos é o rei da criatividade e das ideias lucráveis e mantém os seus hábitos de sucesso, que lhe permitem ser líder de uma das maiores empresas do mundo. Contudo, será que todas as suas ideias irão ser tão eficazes como têm sido até agora? Só o tempo o dirá.

Quanto ao Mourinho, se o sucesso das suas técnicas se revela em títulos conquistados, penso que é altura de rever essas mesmas técnicas e enquadrá-las numa realidade que claramente mudou e que não é tão permente às suas técnicas como antigamente.

Conquistar o sucesso já ele fez, agora é ir mantendo o sucesso, mesmo que isso custe uma nova visão, uma nova estratégia e uma nova maneira de ver os problemas. E essa mudança só ele a poderá fazer e quando o fizer o sucesso será todo seu.

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